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Mercado desconfia da postura do Fed na compra de títulos

Elena Popina

17/01/2020 15h55

(Bloomberg) -- No tribunal de investidores, já saiu o veredito. O banco central americano é culpado de flexibilização quantitativa.

Não importa que o comandante da instituição, Jerome Powell, repita que seus esforços para apoiar os mercados de crédito não configurem "QE em nenhum sentido" (se referindo à sigla para quantitative easing). Por mais que tentem, as autoridades não conseguem mais convencer investidores de que as compras de títulos do Tesouro não são pelo menos parcialmente responsáveis pela alta de quase 4.000 pontos do índice Dow Jones desde o final de agosto.

É uma questão de rótulo. Quem quiser chamar de QE, pode fazer isso.

Ou não. Dá até para atribuir a disparada das bolsas a Powell. Certamente, o Fed acredita que está agindo com segurança. Em vez de tentar reduzir os juros de longo prazo para estimular a economia à la QE, a instituição simplesmente está comprando papéis do Tesouro para manter o encanamento do sistema financeiro em ordem.

O problema para as autoridades é que percepções definem níveis de confiança. Se todos acreditam que a generosidade do banco central está empurrando os preços para cima, o que acontecerá nos mercados quando a torneira for fechada?

"Se a injeção de liquidez do Fed impactou diretamente a economia ou o preço dos ativos ou não, é certamente verdadeiro que muitas pessoas pensam que sim", disse Jim Paulsen, estrategista-chefe de investimentos da Leuthold Group. "Se alguma coisa vai mudar se o Fed tirar isso, não importa. E se um número suficiente de pessoas achar que sim, então isso impactará os mercados."

Em outubro, o Fed começou a comprar US$ 60 bilhões em títulos do Tesouro mensalmente, uma mudança classificada como "puramente técnica" para melhor controlar o juro de referência usado para guiar a política monetária. Compras mensais de papéis do Tesouro serão realizadas pelo menos até o segundo trimestre, conforme as autoridades reiteraram no mês passado.

"A expansão do nosso balanço patrimonial para fins de gestão de reservas não deve de maneira alguma ser confundida com os programas de compras de ativos em grande escala que implantamos após a crise financeira", explicou Powell quando a iniciativa começou.

No entanto, a trajetória ascendente do mercado acionário atrapalha a distinção entre os programas. O S&P 500 disparou 16% desde que atingiu a menor pontuação de agosto. Seu desempenho no quarto trimestre foi o melhor em seis anos. Inconvenientemente para Powell, até seus subordinados dizem que a reação das bolsas não é coincidência.

Juros baixos, a noção de que a barreira para novos acréscimos nas taxas é elevada e a expansão do balanço patrimonial ajudam a impulsionar os preços dos ativos, segundo Robert Kaplan, responsável pelo escritório regional do Fed em Dallas.

"Todas essas três medidas estão contribuindo para elevar os múltiplos dos ativos de risco", afirmou ele à Bloomberg Television na quarta-feira. "Devemos prestar atenção nisso."

A cada dia que passa, mais especialistas concordam com ele. Desde que o Fed começou a comprar papéis do Tesouro, o S&P 500 subiu quase 1% para cada aumento de 1% no balanço patrimonial do Fed, ressaltou o Deutsche Bank.

"Sendo assim, a expansão do balanço patrimonial do Fed tem pelo menos correlação com o avanço do mercado acionário observado desde outubro", disse Torsten Slok, economista-chefe do Deutsche Bank, em entrevista à Bloomberg Radio no início deste mês.

O QE se refere à estratégia de governos na época da crise para ampliar a oferta de dinheiro e baixar as taxas de financiamento de longo prazo. A tática ajudou a afastar a economia do abismo após a crise financeira. Três rodadas de flexibilização também ajudaram o mercado acionário e as cotações das ações se multiplicaram por cinco.

--Com a colaboração de Sarah Ponczek.