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Inflação da carne leva China a renegociar com exportadores

Tatiana Freitas e Ken Parks

21/01/2020 15h08

(Bloomberg) -- Importadores chineses de carne bovina estão renegociando com exportadores sul-americanos depois que os preços altos restringiram a demanda no país asiático.

Alguns compradores do setor privado chinês se recusaram a honrar termos de contratos de exportação de carne uruguaia fechados em novembro e dezembro ou estão procurando renegociar preços e termos para os pagamentos, Federico Stanham, presidente do conselho do Inac (instituto nacional de carnes do Uruguai), disse a repórteres em Montevideu nesta terça-feira.

Renegociações também estão acontecendo no Brasil, disseram pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram para não serem identificadas porque as discussões são privadas. Os exportadores argentinos também estão enfrentando uma revisão nos valores de exportação.

Os preços da carne bovina dispararam no ano passado com a China encontrando dificuldades no abastecimento de proteína animal devido aos efeitos da peste suína africana. Mas a inflação da carne reduziu o consumo chinês e o governo do país asiático restringiu os financiamentos aos importadores, levando-os a pressionar os preços para baixo, de acordo com uma das fontes. No Uruguai, os exportadores estão fechando contratos com a China a preços aproximadamente 30% abaixo do pico verificado em meados de novembro, segundo Stanham.

A busca por renegociação de preços nas importações de commodities agrícolas não é algo incomum quando se trata de compradores chineses, especialmente antes do Ano Novo chinês, comemorado no próximo dia 25. Mas, desta vez, as conversas estão mais duras considerando a recente alta nos preços de volumes de importação.

A China está tentando obter preços mais baixos mesmo para algumas cargas de carne bovina que já estão a caminho do país asiático, disse uma das pessoas. As empresas que começaram a vender para a China no ano passado estão enfrentando mais dificuldades nas negociações, enquanto os principais e habituais fornecedores chineses estariam mais protegidos por termos dos contratos, embora também tenham sido solicitados a baixar os preços, disseram duas pessoas. As renegociações sobre os preços de importação de carne bovina do Brasil foram divulgadas pela primeira vez pelo jornal Folha de S. Paulo.

"Desde o final de 2019, recebemos relatos de agentes de exportação brasileiros sobre renegociações e cancelamentos da China", disse Caio Toledo, consultor de gerenciamento de riscos do INTL FCStone em Campinas, São Paulo, em entrevista por telefone. "Alguns importadores chineses podem ter enfrentado problemas para repassar os altos preços de importação aos consumidores e agora têm um estoque de carne caro", disse Toledo.

Para alguns exportadores uruguaios, a situação criou problemas financeiros e um "estressante" janeiro e fevereiro, segundo o diretor de marketing do Inac, Lautaro Perez. A China pode demorar até o final de abril para reduzir o nível dos estoques de carne, disse Perez.

As exportações brasileiras de carne bovina para a China aumentaram 53% em 2019, segundo dados do grupo exportador Abiec. O aumento ajudou a elevar os preços locais da carne bovina e do gado para níveis recordes em novembro, levando a inflação do Brasil em 2019 a superar as expectativas. Desde seu pico em 28 de novembro, o preço da carne bovina no atacado caiu 21%, segundo dados do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq-USP).

Repórteres da matéria original: Tatiana Freitas em São Paulo, tfreitas4@bloomberg.net;Ken Parks em Montevidéu, kparks8@bloomberg.net