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Raiz alucinógena chama atenção de Davos no combate a opioides

Eyk Henning

22/01/2020 09h37

(Bloomberg) -- A audiência bilionária do Fórum Econômico Mundial, em Davos, fez uma pausa sobre o problema da mudança climática para ouvir a história de uma empresa que desenvolve um medicamento alucinógeno.

O fascínio não está no uso recreativo, mas em seu potencial como tratamento para o vício em opioides que mata centenas de milhares de pessoas nos Estados Unidos. Com base em um extrato da raiz de um arbusto africano e já usada em alguns países, a terapia experimental será testada em breve pela Atai Life Sciences, uma empresa que estuda outros produtos naturais, como cogumelos mágicos para tratar a depressão.

A Atai, financiada pelo bilionário Peter Thiel, e a sócia DemeRx se preparam para um teste intermediário de uma forma sintética da substância, chamada ibogaína, para tratamento de dependência de drogas. O interesse em tais terapias é alto devido à forte epidemia de opioides nos EUA, disse o fundador da empresa alemã, Christian Angermayer, em Davos.

"Em alguns círculos, os psicodélicos ainda estão associados à fuga do mundo real e a extravagâncias irresponsáveis", disse Thiel em e-mail. "Com os estudos controlados pela FDA, veremos que seu uso mais poderoso traz saúde mental e sanidade sóbria às pessoas em um ambiente médico", disse fazendo referência à agência que regula fármacos e alimentos nos EUA.

Pesquisadores e clínicos buscam tratamentos para abuso de substâncias que não causem dependência. Ao contrário da metadona, um substituto e, portanto, também um opioide, a ibogaína é frequentemente chamada de interruptor de dependência que parece redefinir a química do cérebro envolvida no vício.

O uso da ibogaína remonta a uma cerimônia antiga da tribo Bwiti, na África Ocidental, que marca a entrada de rapazes na idade adulta. Entre 1930 e 1960, o composto foi comercializado como Lambarene na França, alegando sua eficácia como estimulante.

A substância já foi usada em algumas clínicas de reabilitação para tratar casos graves de dependência de drogas. Estudos realizados na última década indicam que a substância pode reduzir a gravidade dos níveis de abstinência de opioides, em alguns casos com mais eficiência do que a metadona.

Os pacientes descreveram a experiência como uma viagem sóbria que visualiza as consequências negativas do abuso de drogas, de acordo com Deborah Mash, fundadora da DemeRx. O procedimento requer 24 horas de monitoramento clínico, disse, já que a ibogaína tem sido associada a efeitos colaterais no coração.

Desde que uma geração de analgésicos supostamente mais seguros, introduzida duas décadas atrás, desencadeou uma epidemia de opioides, as overdoses mataram cerca de 400 mil pessoas nos EUA - mais mortes do que as baixas do exército do país na Segunda Guerra Mundial.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net