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Trump celebra pacto para agricultores, mas China tem outro plano

Alfred Cang, Javier Blas e Isis Almeida

23/01/2020 10h52

(Bloomberg) -- A trégua comercial de Donald Trump com Pequim incluiu uma promessa de compra de bilhões de dólares em alimentos dos Estados Unidos nos próximos dois anos, reabrindo um dos mercados de exportação mais importantes para o cinturão agrícola norte-americano.

"Os agricultores estão realmente felizes com o novo acordo comercial com a China", tuitou o presidente dos EUA no dia após a cerimônia de assinatura na Casa Branca.

Mas a euforia está evaporando rápido. A disputa com o governo norte-americano expôs a vulnerabilidade de Pequim quando se trata da importação de alimentos - especialmente a soja, necessária para alimentar seu enorme rebanho -, e a liderança do Partido Comunista agora fará todo o possível para reduzir a dependência dos EUA.

"Sempre que houver um corte na cadeia de suprimentos e, especialmente em algo tão sensível quanto alimentos, eles precisarão diversificar", disse David MacLennan, diretor-presidente da Cargill, a maior trading de commodities agrícolas do mundo. "Acho que eles não querem estar na mesma posição novamente, serem muito dependentes de um fornecedor."

A segurança alimentar tem sido uma prioridade política desde que o aumento dos custos de vários produtos, desde carne de porco até eletrônicos no final da década de 1980, provocou insatisfação no período que antecedeu os protestos da Praça da Paz Celestial. Após uma geração, a maior população do mundo está muito mais rica e com uma crescente preferência por dietas ricas em proteínas, mas não produz o suficiente para atender a demanda no mercado doméstico.

Para agricultores dos EUA, o acordo comercial pode ser positivo apenas no curto prazo, enquanto a China busca cumprir sua promessa de dois anos. Mas, a longo prazo, se o maior cliente dos EUA buscar outros mercados - criando uma enorme oportunidade para gigantes da agricultura como Brasil, Argentina e Rússia -, isso poderá ter repercussões políticas nas comunidades agrícolas que apoiam Trump.

A sorte de empresas agrícolas globais também será definida pela resposta da China. De tradings agrícolas como Cargill e Louis Dreyfus a fabricantes de equipamentos agrícolas como Deere & Co., dezenas de empresas têm bilhões de dólares em jogo, dependendo de onde a China compra seus alimentos.

Há muito tempo a China tenta conquistar autossuficiência, pagando enormes subsídios aos agricultores para cultivar milho e arroz. Mais de 95% de suas necessidades de cereais agora podem ser abastecidas localmente. Mas o declínio da terra arável, a escassez de água e a força de trabalho agrícola envelhecida significam que a produção doméstica por si só não é suficiente em um país em rápida urbanização.

Portanto, o déficit precisa ser coberto no exterior. O presidente da China, Xi Jinping, lançou a iniciativa One Belt, One Road (um cinturão, uma rota) em 2013 para expandir as rotas comerciais, depois de também investir bilhões de dólares em empresas agrícolas globais e infraestrutura na última década, a maioria das quais fora dos Estados Unidos.

Antes do aumento das hostilidades em 2017, os EUA foram o principal fornecedor agrícola da China por 18 anos consecutivos. O país respondia por quase 20% de suas importações de bens agrícolas, no valor de US$ 24 bilhões por ano.

E foi nesse ponto onde a China se viu vulnerável na guerra comercial.

Na guerra de tarifas, as importações dos EUA caíram 45% em 2018. O governo chinês impôs taxas de retaliação de 5% a 60% sobre quase todos os produtos agrícolas norte-americanos, como soja, carne de porco e milho.

As tarifas deram a Pequim grande influência sobre Washington, levando Trump a anunciar um pacote de US$ 28 bilhões para agricultores diante das grandes perdas. Mas as tarifas também obrigaram a China a buscar outros fornecedores.

Agora, a China dobrará os esforços para diversificar, sendo Brasil e Argentina os beneficiários mais óbvios.

O presidente Jair Bolsonaro e o líder chinês Xi prometeram continuar aumentando o comércio bilateral, que atingiu níveis recordes durante a guerra comercial. A China também reforçou sua aliança com a Argentina, abrindo as portas aos embarques de farelo de soja a produtores argentinos pela primeira vez.

"A segurança alimentar é sempre fundamental para a liderança da China, e esta guerra comercial apenas afirma a importância de ter uma forte produção doméstica e fontes de importação diversificadas", disse Li Qiang, analista-chefe da Shanghai JC Intelligence, uma influente consultoria agrícola chinesa.

--Com a colaboração de Dominic Carey.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Alfred Cang Singapore, acang@bloomberg.net;Javier Blas em Londres, jblas3@bloomberg.net;Isis Almeida em Londres, ialmeida3@bloomberg.net