PUBLICIDADE
IPCA
0,86 Out.2020
Topo

Para lucrar com ações, tire o fone de ouvido: Bloomberg Opinion

John Authers

24/01/2020 08h57

A vitória da redução do ruído.

(Bloomberg) -- Trabalhar em um grande escritório sem divisórias, cercado por pessoas que enfrentam pelo menos o mesmo estresse que você, não é fácil. A política da Bloomberg segundo a qual ninguém se fecha em seu escritório particular tem suas vantagens. Você nunca perde notícias e ideias que fluem pela sala com várias centenas de jornalistas. Mas o barulho é um problema. E isso é verdade no sentido literal e figurativo. Como exatamente podemos distinguir sinal de ruído?

Existe uma solução. Meu vizinho e colega próximo Cameron Crise, que escreve a coluna Macro Man, usa fones de ouvido de redução de ruído sempre que está escrevendo. A princípio, é desagradável quando a pessoa sentada ao seu lado está bloqueando cada palavra que você diz. Mas a estratégia de Cameron funciona. Agora, também uso fones de ouvido com redução de ruído ao escrever. Eles filtram o barulho, deixando apenas o sinal (como os momentos em que Cameron grita para sua tela enquanto Jerome Powell está dando uma conferência de imprensa).

A redução do ruído também costuma ser uma ótima estratégia para os mercados. No ano passado, no entanto, teria feito sentido tirar os fones de ouvido e prestar atenção ao barulho. Qualquer pessoa com um computador poderoso e capacidade de manter os custos de negociação baixos pode ganhar dinheiro com esse método, descrito por Joseph Mezrich, estrategista quantitativo da Instinet LLC. Comece com uma estratégia de reversão simples de montar posições vendidas com ações de melhor desempenho no fim de cada mês e comprar as com pior performance. Como mostra o gráfico, que não inclui os custos de negociação (provavelmente consideráveis), o ganho é quase nulo a longo prazo. Depois, controle o desempenho dos diferentes fatores durante o mês e o desempenho dos diferentes setores - ambos melhoram os retornos. Como etapa final, exclua ações onde há baixa dispersão entre as previsões de analistas, com o argumento de que os fundamentos dessas empresas provavelmente são conhecidos e precificados. Se você evitar ações que estejam se movendo em linha com seus setores ou fatores ou em resposta às notícias sobre seus fundamentos, provavelmente o que resta é puro "ruído". Apostar nessas ações para uma reversão no final de cada mês, ao que parece, gera lucro de forma muito consistente.

Abafar todo o resto para que possamos identificar o que é puro ruído é muito mais fácil de falar do que fazer. Essa se tornou uma das maneiras mais fortes para permitir que investidores quantitativos ganhem dinheiro, e é uma estratégia que a maioria de nós não deve tentar.

Agora, analisemos o que aconteceu no ano passado. Os fatores foram revertidos de mês a mês, de uma maneira que não era vista desde o início dos dados da Instinet, em 1985. E a "reversão padrão" (uma abordagem grosseira de apenas apostar nas mudanças de preço para reversão sem levar em consideração outros fatores) teve seu melhor desempenho, exceto logo após o estouro da bolha ponto.com.

Não foi um fenômeno exclusivamente dos Estados Unidos. O gráfico a seguir, de Andrew Lapthorne, estrategista-chefe quantitativo do Société Générale, mostra que os retornos de um simples fator de reversão foram ainda mais surpreendentes historicamente na Europa do que nos EUA:

O que pode explicar isso? Claramente, o início do ano passado sofreu uma enorme reviravolta da política monetária, que se intensificou à medida que o ano avançava, e havia uma grande incerteza sobre o comércio. O índice de Incerteza da Política Econômica dos EUA atingiu por duas vezes níveis mais altos do que o registrado desde que a nota dos títulos do Tesouro dos EUA foi rebaixada pela Standard & Poor's em 2011.

Quão seriamente devemos levar o índice? É baseado na análise de artigos de imprensa e é mais um indicador de expectativa do que qualquer outra coisa. Quando a expectativa está agitada, podemos ver que os preços das ações têm mais probabilidade de reverter. Foi um ano de extrema polarização política, mesmo com muitos outros em que ocorreram mudanças mais fundamentais na economia. E, por isso, parece que 2019 foi um dos primeiros anos em que o ruído abafou o sinal.

Voltando à analogia dos fones de ouvido, no ambiente excepcionalmente carregado de angústia e raiva de 2019, ficou provado que era melhor não abafar o barulho, mas seguir todos os sons que distraíam e apostar contra eles. Este ano começou com mais reversões. Portanto, é possível que o ambiente barulhento seja algo com o qual devemos aprender a conviver e começar a negociar regularmente contra os ruídos mais recentes.

Mas meu vizinho ainda está usando fones de ouvido. E, por enquanto, pretendo continuar imitando-o.

É assim que o Brexit termina...

Em matéria de redução de ruído, o parlamento do Reino Unido finalmente votou irrevogavelmente para deixar a União Europeia, não com um estrondo, mas um gemido. Agora armado com uma forte maioria parlamentar, o primeiro-ministro Boris Johnson conseguiu esmagar toda a oposição e drama. Um comentarista de destaque chamou o evento de Quarta-feira Azul. A Câmara dos Lordes concordou em não levar adiante as objeções ao projeto de lei que formaliza a decisão do Reino Unido de sair do bloco e, então, o Brexit agora precisa apenas do consentimento da rainha para se tornar lei. A fadiga do Brexit no Reino Unido é tão grande que essas notícias importantes, resolvendo uma questão que dividiu o país quase sem pausa por quatro anos, nem chegaram à primeira página de alguns jornais britânicos.

Isso é suficiente para ressuscitar a libra esterlina? A empolgação imediata pós-eleição acabou, deixando a libra no topo do intervalo pós-referendo, mas ainda não claramente acima dele. Como o gráfico mostra, em uma base ponderada em relação a um amplo grupo de moedas, a libra esterlina nunca conseguiu recuperar parte do terreno perdido na noite do referendo além de alguns dias:

Por pelo menos um ano, desde que ficou claro que a ex-primeira-ministra Theresa May teria problemas para aprovar seu projeto de lei de retirada do Brexit no parlamento, a libra esterlina oscilou de acordo com um risco binário - o Reino Unido sairia sem um acordo ou não? Agora esse risco acabou. Então a libra está pronta para uma recuperação?

Possivelmente, não. Para começar com um problema óbvio, o Reino Unido teve inflação mais alta do que seus principais parceiros comerciais, o que significa que todas as coisas equivalentes à libra devem enfraquecer de alguma forma. Existem muitas maneiras de medir a paridade do poder de compra, mas poucas sugerem que a libra esteja desvalorizada em grau significativo. Este gráfico mostra como a inflação se moveu no Reino Unido em comparação com a zona do euro e com os EUA desde o referendo em junho de 2016:

Além disso, há o problema de que a economia do Reino Unido ainda não teve que enfrentar nenhum dos efeitos reais do Brexit, mesmo que parte da incerteza tenha sido resolvida. A mais recente pesquisa com industrialistas da Confederação da Indústria Britânica mostra o otimismo se recuperando para um nível nunca visto desde antes do referendo; mas os pedidos reais continuam muito fracos.

Isso deve levar o Banco da Inglaterra a cortar os juros em breve e, na opinião dos mercados, antes que outros grandes bancos centrais o façam. Isso tende a enfraquecer a libra.

No entanto, a maior questão continua sendo a incerteza do Brexit. O Reino Unido deve fechar um acordo com a União Europeia até o fim deste ano, além de fazer novos acordos comerciais com outros parceiros importantes, liderados pelos EUA. Segundo o ministro das Finanças, Sajid Javid, em entrevista na semana passada ao Financial Times: "Não haverá alinhamento, não obedeceremos regras, não estaremos no mercado único e não estaremos na união aduaneira". Se for verdade, isso implica um acesso dramaticamente reduzido ao mercado da UE - não superior ao desfrutado pelo Canadá e, possivelmente, até menos. Isso levanta a questão de que se vale a pena ter um acordo e, portanto, implica que o risco de uma saída sem acordo está de volta. Enquanto isso, o desejo declarado do Reino Unido de priorizar um acordo com a UE coloca o país em divergência com os EUA.

Os riscos não são tão binários ou alarmantes como os que apareceram durante grande parte do ano passado. Mas a incerteza parece grande demais para permitir que a libra esterlina comece a recuperar o terreno perdido na noite do referendo. Isso terá que esperar até que um acordo comercial seja assinado, o que significa pelo menos até o fim deste ano.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net