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China compra soja da América do Sul mesmo sob impacto de vírus

Isis Almeida e Alfred Cang

05/02/2020 11h34

(Bloomberg) -- A China encomendou cerca de 10 carregamentos de soja da América do Sul, o que alivia preocupações de que o maior comprador de alimentos do mundo poderia cancelar as importações devido à propagação do coronavírus, segundo pessoas com conhecimento do assunto.

Os clientes chineses encomendaram os suprimentos no Brasil e na Argentina nesta semana, disseram as pessoas, que não quiseram ser identificadas. Os acordos mostram que o país asiático atualmente não tem planos de declarar força maior e cancelar as remessas compradas anteriormente, disseram as pessoas.

Os mercados agrícolas enfrentam uma turbulência desde o surgimento do surto do coronavírus na cidade de Wuhan. Os futuros da soja em Chicago registraram a maior queda mensal em janeiro desde meados de 2018. A infecção já matou quase 500 pessoas, levando economistas do Goldman Sachs, UBS e Macquarie a cortarem suas previsões para o crescimento econômico chinês.

"A força maior é uma opção disponível para importadores e exportadores que lhes permite uma saída para um contrato diante de uma situação imprevista", disse Bevan Everett, consultor de gestão de riscos da INTL FCStone Financial, em Des Moines, Iowa. O Brasil deve ser o mais atingido por qualquer declaração de força maior, já que possui um maior volume encomendado pela China, disse.

Os embarques do Brasil para a China ocorrem normalmente e sem restrições até o momento, apesar do surto do coronavírus, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, a repórteres na terça-feira.

Prioridade

Embora atrasos no transporte e fechamento de fábricas tenham afetado as cadeias de suprimentos na China, é improvável que a demanda por alimentos diminua. Garantir suprimentos é uma prioridade para o governo, e o principal planejador econômico ordenou que processadores continuem operando. A processadora e empresa de armazenagem estatal Sinograin pediu a todas esmagadoras que retomassem a produção total, segundo comunicado da empresa.

Os carregamentos brasileiros são para entrega em março, enquanto as remessas argentinas são para abril, disseram as pessoas. Embora exista uma longa fila de navios esperando para carregar soja e milho nos portos brasileiros, isso se deve principalmente à falta de suprimentos prontamente disponíveis nos depósitos portuários devido a atrasos na colheita, disseram as pessoas.

A propagação do coronavírus alimentou especulações de que a China poderia tentar cancelar alguns carregamentos de soja para posteriormente comprá-los a preços mais baixos. Também despertou preocupação de que o país asiático possa recorrer a uma cláusula que lhe permite adiar promessas de comprar até US$ 50 bilhões em produtos agrícolas dos EUA, que constam no acordo comercial fechado entre Washington e Pequim.

A doença interferiu nas rotas comerciais da China, já que restrições de movimentação e falta de caminhões em algumas áreas levaram à escassez de farelo de soja, um ingrediente-chave na alimentação de suínos. Ainda assim, alguns analistas dizem que o consumo de commodities alimentícias, como soja, trigo e milho, deve continuar positivo.

"Tudo se resume a caminhões e barcos", disse Everett. "Se o movimento das pessoas está limitado, as commodities não se movem. As pessoas não vão comer menos porque a doença não é tão mortal para a população no geral. Não houve mudança no consumo de grãos e oleaginosas durante a SARS."

--Com a colaboração de Shuping Niu.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Repórteres da matéria original: Isis Almeida em Chicago, ialmeida3@bloomberg.net;Alfred Cang Singapore, acang@bloomberg.net

Economia