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Banqueiros confinados observam queda de acordos na China

Vinicy Chan, Julia Fioretti e Ken Wang

17/02/2020 12h38

(Bloomberg) -- O setor de bancos de investimento é totalmente dependente da rede de contatos e toque pessoal. Com o coronavírus sacudindo a China, banqueiros confinados em casa não podem fazer nem uma coisa nem outra, o que afeta os acordos na segunda maior economia do mundo.

O surto de coronavírus, que já matou mais de 1,7 mil pessoas, impediu muitos profissionais de bancos de investimento de viajarem à China, tornando quase impossíveis reuniões com clientes e diligência prévia no local. Fusões anunciadas envolvendo empresas chinesas caíram para US$ 25,9 bilhões desde janeiro, o menor valor para o período desde 2014, segundo dados compilados pela Bloomberg. É uma história semelhante no mercado de ações, com apenas uma oferta pública inicial nos últimos 30 dias em Hong Kong.

"É inevitável que haja atrasos na execução de acordos como resultado de restrições de viagens e escritórios fechados, o que continua a interferir nas atividades comerciais", disse Sze-shing Tan, diretora da prática de fusões no escritório de advocacia Baker McKenzie Wong & Leow, em Cingapura.

A lista de acordos atrasados está crescendo. A fabricante de autopeças Chongqing Sokon Industry disse em comunicado à Bolsa de Valores de Xangai que o surto de coronavírus "teve um impacto direto" em sua planejada aquisição da joint venture da Dongfeng Motor, por meio da venda de uma participação de 3,85 bilhões de yuans (US$ 553 milhões). A empresa-alvo, com sede na província de Hubei, não conseguiu atualizar as finanças em meio à suspensão das auditorias e verificações no local.

A First Quantum Minerals adiou a venda de suas operações na Zâmbia porque o surto impede reuniões cara a cara com potenciais compradores chineses, informou a empresa canadense na semana passada. O ativo atraiu interesse de empresas como a Jiangxi Copper, segundo pessoas a par do negócio.

Em Hong Kong, onde muitos banqueiros e advogados também estão confinados em "home offices", a operadora de restaurantes Daikiya Group Holdings cancelou o IPO, enquanto a empresa chinesa de biotecnologia InnoCare Pharma adiou reuniões com investidores para sua listagem planejada em Hong Kong. A medida, que pode atrasar a oferta de ações, não é um bom presságio para outras candidatas à abertura de capital. A 58 Home, o serviço de limpeza e manutenção de imóveis da 58.com Inc., o equivalente chinês da Craigslist, adiou o IPO programado nos EUA já que o surto de coronavírus afeta a demanda dos clientes.

Já o mercado de IPOs da China segue em frente. Doze empresas precificaram ofertas este mês, com valor combinado de US$ 2,8 bilhões, segundo dados da Bloomberg. O momentum pode não durar muito, já que essas listagens foram aprovadas antes do feriado do Ano Novo Lunar, quando o surto de coronavírus começou a dominar as manchetes.

Para os que fecham negócios, o vírus expõe os limites da tecnologia. Na era do banco digital e comércio eletrônico extremamente rápido, algumas transações ainda exigem aperto de mão e contato pessoal. Reuniões de apresentação do negócio, diligência prévia e revisões regulatórias funcionam melhor pessoalmente. Afinal, é um setor de serviços muito parecido com o negócio de restaurantes: você não pode fechar um acordo de um bilhão de dólares pelo WeChat, disse um banqueiro, fazendo referência ao popular aplicativo de mensagens da China.

--Com a colaboração de Lulu Chen, Cathy Chan e Manuel Baigorri.

Repórteres da matéria original: Vinicy Chan Hong Kong, vchan91@bloomberg.net;Julia Fioretti Hong Kong, jfioretti4@bloomberg.net;Ken Wang em Pequim, ywang1690@bloomberg.net

Economia