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Recuperação judicial de grupo de soja argentino abala setor

Jonathan Gilbert

21/02/2020 15h23

(Bloomberg) -- Em meados de agosto de 2019, grande parte dos agricultores argentinos havia perdido a paciência. Queriam o dinheiro que lhes era devido e rápido. Dias antes, o então candidato de esquerda Alberto Fernández havia obtido uma vitória contundente nas primárias que deixou claro que também venceria as eleições presidenciais de outubro. Então, começaram as especulações de que Fernández iria impor novos impostos.

Vários agricultores começaram a ligar para seus corretores de grãos para fixar os preços das cargas de soja que já haviam entregado e receber os recursos. O movimento provocou uma corrida por dinheiro na comunidade de corretoras em Rosário, a cidade portuária que há muito tempo funciona como polo de comércio de grãos da Argentina, maior produtora mundial de farelo de soja.

A impressão, dizem alguns, era de uma corrida aos bancos. E, no final, provocou a ruína de uma das maiores tradings de Rosário. Em 10 de fevereiro, a Vicentin, empresa fundada há 91 anos e especializada na exportação de farelo e óleo de soja, entrou com pedido de recuperação judicial com o argumento de que não poderia fazer um pagamento de US$ 350 milhões devido a fornecedores e que buscaria reestruturar uma dívida de US$ 1 bilhão.

Os problemas da Vicentin rapidamente se espalharam, já que corretoras como BLD e Guardati Torti disseram que não podiam pagar suas obrigações. Também ameaçam prejudicar ainda mais a indústria da soja, um motor da frágil economia argentina. O default da Vicentin é o maior de uma empresa argentina desde 2001, quando a recessão levou o governo a declarar moratória da dívida, e pressagia outra crise nacional: Fernández deixou claro que, em breve, solicitará aos credores estrangeiros alívio da dívida.

Corretoras em Rosário

Poucos em Rosário estavam dispostos a falar abertamente sobre a situação da Vicentin - a comunidade de corretoras é muito unida para permitir esse tipo de comentários -, mas o sentimento predominante na última semana é o desejo de ver a empresa sobreviver e pagar as dívidas. "Todo o setor precisa que a Vicentin permaneça no negócio", disse Mariano Grynblat, agricultor e corretor que tenta recuperar US$ 3,2 milhões seus e de clientes.

Também houve muito debate sobre como a empresa conseguiu se complicar tanto. A resposta, de acordo com várias entrevistas com corretores, empresas de trading, advogados e membros do comércio de Rosário, é a expansão da empresa que se acelerou quando Mauricio Macri, defensor do livre mercado que apoiava o setor agrícola, assumiu a presidência em 2015. O rápido crescimento deixou a empresa financeiramente exposta quando o a bolha estourou, como sempre acontece na Argentina.

E, grande parte dessa expansão, foi possibilitada por um mecanismo financeiro exclusivamente argentino que permitiu à Vicentin receber todos os embarques de soja dos agricultores sem pagar um centavo adiantado.

A empresa não quis comentar especificamente sobre os horizontes de preços dos contratos. Um representante da Vicentin que não quis se identificar disse que a expansão era preferível à estagnação e às consequências da perda de participação de mercado.

Para muitos, a crise lembra a queda de outra exportadora argentina de produtos agrícolas na virada do século. A Productos Sudamericanos faliu e seus ativos foram comprados em grande parte pela Cargill.

--Com a colaboração de Michael Hirtzer e Jorgelina do Rosario.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

Economia