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Coronavírus pode representar outro golpe contra globalização

William Horobin

03/03/2020 15h23

(Bloomberg) -- A turbulência causada pelo surto de coronavírus pode ser a sacudida final que as maiores empresas do mundo precisavam para reavaliar como operam em uma economia globalizada, disse o economista-chefe da OCDE, Laurence Boone.

As amplas cadeias de fornecedores que atravessam continentes já estavam sob pressão diante das tensões comerciais e preocupações climáticas e podem enfrentar mais estresse com a mudança das regras tributárias globais. Se e quando a poeira do coronavírus baixar, Boone disse que as empresas provavelmente farão uma análise para reavaliar suas operações.

"O que caracteriza o que vimos na última década é efetivamente a administração em tempo real de estoques e cadeias de fornecedores muito integradas", disse Boone na segunda-feira. "Da mesma forma que os bancos centrais podem revisar a estrutura de política monetária, acho que, após esse surto, as empresas devem analisar como administram seus estoques, como organizam a produção globalmente."

Existem alguns sinais de que empresas já prestam mais atenção ao problema, embora seja muito cedo para dizer que haverá reações bruscas ao vírus. Na semana passada, a francesa Sanofi disse que seu plano de criar uma empresa autônoma que fabrique ingredientes essenciais para outras farmacêuticas ajudará a garantir o fornecimento de componentes importantes e reduzirá a dependência da Ásia.

Os vínculos mais profundos entre economias criados pela globalização mostram que o impacto do vírus não tem precedentes.

"A economia global tornou-se substancialmente mais interconectada, e a China desempenha um papel muito maior na produção global", disse a OCDE em relatório. "Mesmo que o pico do surto seja de curta duração, com uma recuperação gradual da produção e da demanda nos próximos meses, ainda exercerá um impacto significativo sobre o crescimento global em 2020."

A OCDE não é a primeira a levantar a questão. As lições de longo prazo também foram discutidas em reunião dos ministros das Finanças do G-20 em fevereiro. Algumas autoridades alertaram para os riscos da forte dependência de cadeias de suprimentos complexas em setores estratégicos e sensíveis.

"Vimos claramente que dependemos demais da oferta de países estrangeiros e da China", disse o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, em entrevista ao canal France 2 na segunda-feira. "Vamos revisar todas nossas cadeias de suprimentos industriais para ver como podemos relocalizar as empresas nas áreas mais estratégicas e ser soberanos e independentes."

--Com a colaboração de James Paton.

Para contatar o editor responsável por esta notícia: Daniela Milanese, dmilanese@bloomberg.net

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