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Resgates da União Europeia podem dar origem a zumbis nacionais

Richard Bravo

28/04/2020 13h21

(Bloomberg) -- Enquanto a União Europeia se apressa para salvar empresas apoiadas pelo estado à beira do fracasso, governos correm o risco de comprometer os esforços para fortalecer suas economias.

Ao flexibilizar as regras de ajuda estatal, a UE abriu caminho para gastos de trilhões de dólares destinados a apoiar setores devastados pela pandemia de coronavírus. Mas, ao tentar salvar empregos, os governos podem acabar apoiando empresas que já tinham problemas e sofrer as consequências quando as coisas voltarem ao normal.

"Nem todo dinossauro deve e pode ser resgatado, especialmente se a empresa já estava em decadência no longo prazo", disse Guntram Wolff, diretor do think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, por e-mail. "Subsídios de longo prazo para dinossauros podem resultar em menos dinheiro para setores novos e dinâmicos."

Antes de o coronavírus obrigar a UE a paralisar grande parte da economia, governos canalizavam recursos para baterias de carros elétricos, energia renovável e computação em nuvem, como parte de uma estratégia para tornar o bloco líder em setores de baixo carbono do século 21. Eis a questão agora: esses objetivos sobreviverão à crise?

Autoridades insistem que a UE deve manter a visão de longo prazo, mesmo enquanto tenta aliviar a devastação econômica causada pelo confinamento.

"Com a crise, a UE tem uma chance histórica de finalmente se tornar um grande poder econômico e político entre os EUA e a China", disse o ministro das Finanças da França, Bruno Le Maire, no início deste mês. "A UE deve aproveitar esta oportunidade."

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, prometeu na terça-feira continuar a usar o plano ambiental da UE, que propõe a eliminação de emissões até meados do século, como o "motor" da recuperação econômica. "Ao usar o Green Deal europeu como nossa bússola, podemos transformar a crise desta pandemia em uma oportunidade de reconstruir nossas economias de maneira diferente e torná-las mais resilientes", disse em mensagem de vídeo.

Mas não são as empresas de tecnologia ou energia limpa que parecem ganhar com o maior resgate industrial da história da Europa. São os mesmos antigos setores que formaram a espinha dorsal do mercado de trabalho do século 20.

A França e os Países Baixos prometeram até 11 bilhões de euros para salvar a Air France-KLM depois que a companhia aérea alertou sobre uma crise de caixa iminente e a possibilidade de não sobreviver à pandemia global sem ajuda do estado. A Alemanha se prepara para comprar uma participação na Deutsche Lufthansa como parte de um programa para ajudar a companhia aérea a enfrentar a queda da demanda, de acordo com pessoas com conhecimento do assunto. O pacote total de empréstimos, garantias de crédito e participação acionária pode chegar a 10 bilhões de euros.

O diretor-presidente da Ryanair, Michael O'Leary, disse que pode processar a UE para impedir a França e outros países de "doarem seletivamente bilhões de euros para suas ineficientes" companhias aéreas, segundo carta enviada por ele à chefe de concorrência da UE e vista pela Bloomberg.

©2020 Bloomberg L.P.