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Temor de compradores da China e EUA coloca Europa na defensiva

Jonathan Stearns

30/04/2020 13h56

(Bloomberg) -- Lançadas em uma nova era de maior intervencionismo devido à pandemia de coronavírus, autoridades da União Europeia tentam proteger seus ativos mais valiosos após a pior sangria do mercado acionário em quase uma década, que os deixou vulneráveis a aquisições.

Governos de Berlim, Paris, Roma e Madri aumentaram seus poderes para vetar investimentos de fora da UE nas últimas semanas, e o bloco prepara as primeiras regras válidas para o continente com o objetivo de monitorar aquisições por motivos de segurança. Garantias especiais foram oferecidas a empresas de biotecnologia, já que a corrida por uma vacina contra o Covid-19 assume importância crítica.

Como o colapso econômico se somou às incertezas provocadas pela ascensão da China, a retirada dos EUA e o avanço da Rússia, o bloco de 27 países está em vias de abandonar sua antiga política de portas abertas em meio aos sinais de que outras potências globais buscam obter vantagens.

Empresas chinesas apoiadas pelo estado comunista já buscam pechinchas na Europa. A Alemanha aprendeu uma lição amarga com a operação furtiva do investidor bilionário Li Shufu, que se tornou o maior acionista da Daimler em 2018. Autoridades de Berlim também ficaram alarmadas com reportagens divulgadas em março sobre uma abordagem do governo dos EUA de uma empresa de pesquisa de vacinas, que foi negada pela Casa Branca.

"Trata-se da necessidade de proteger nossa infraestrutura crítica, para não sermos ingênuos quanto ao que poderia acontecer com alguns setores vulneráveis e tecnologias vulneráveis com intervenções de países terceiros", disse o comissário de Comércio da UE, Phil Hogan, a parlamentares do bloco em 21 de abril, em Bruxelas.

Até agora, investidores estrangeiros tinham como foco o cumprimento das regras de concorrência da UE, disse Pascal Dupeyrat, que assessora investidores não europeus na França. "Nos próximos cinco a 10 anos, essas transações deverão ser aceitáveis sob a medida muito mais ampla da segurança nacional", afirmou.

Ainda assim, o que europeus chamam de comportamento predatório, outros considerariam jogo justo sob as regras do capitalismo moderno. Críticos argumentam que essa abordagem enfatiza o crescente protecionismo que tem marcado a Europa nos últimos anos.

A UE também deve agir com cuidado devido à importância do investimento estrangeiro direto para a economia europeia. O IED é diretamente responsável por cerca de 16 milhões de empregos na UE, e o bloco atraiu 7,2 trilhões de euros (US$ 7,8 trilhões) em capital estrangeiro até o final de 2018.

Nesse sentido, a Europa tem sido um termômetro da economia global. Em todo o mundo, a proporção de ações de IED em relação ao PIB global quase multiplicou por seis, para 40% em 2017 em relação aos 7% em 1990, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

Apesar do maior escrutínio regulatório, o interesse de investidores estrangeiros em ativos europeus permanecerá forte como resultado da queda do mercado de ações, que provavelmente deve durar até o próximo ano, disse Davina Garrod, consultor de investimentos e concorrência do escritório de advocacia Akin Gump Strauss Hauer & Feld, com sede em Londres.

"A maré está mudando na Europa com maior vigilância, principalmente em relação aos chineses e russos", disse Garrod. "Mas não está transformando a Europa em uma fortaleza."

©2020 Bloomberg L.P.