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Plano de produção de bombas nucleares de Trump divide cidade

Ari Natter e Charlie Mcgee

09/07/2020 16h24

(Bloomberg) -- Um complexo à beira do rio Savana, na Carolina do Sul, produziu trítio e plutônio para armas nucleares dos EUA durante a Guerra Fria, empregando milhares de pessoas, mas deixando um legado tóxico de resíduos radioativos.

Agora, o governo do presidente Donald Trump propõe gastar US$ 9 bilhões ao longo de 10 anos para reiniciar a produção de componentes para bombas ali e em um outro local. O plano trouxe a perspectiva de novos empregos, mas também reacendeu os temores ambientais, além dos alertas sobre uma nova corrida armamentista nuclear em um momento em que importantes tratados com a Rússia expiram.

"É um desperdício de dinheiro e perigoso", disse Stephen Young, especialista em controle de armas e questões de segurança internacional de uma associação de cientistas engajados.

O plano de Trump, anunciado pelos departamentos de Energia e Defesa em 2018, propõe a retomada da produção de esferas de plutônio para bombas nucleares no complexo da Carolina do Sul e em outro localizado no estado do Novo México. As esferas do tamanho de uma bola de boliche agem como gatilho de uma ogiva nuclear, desencadeando a reação em cadeia explosiva.

Os EUA não produzem essas esferas em escala industrial há quase três décadas. A Administração Nacional de Segurança Nuclear (NNSA), divisão do Departamento de Energia responsável pela fabricação de ogivas nucleares para o Departamento de Defesa, afirma que as esferas existentes precisam ser substituídas porque estão envelhecendo e porque avanços tecnológicos garantem maior segurança. A ideia tem apoio do Congresso e teve o endosso de Barack Obama quando era presidente.

"Os EUA não podem adiar o restabelecimento dessa capacidade crítica", afirma o website da NNSA. "Atrasar a restauração dessa capacidade pode resultar em aumento de custos e riscos para a segurança nacional".

Embora a retomada da produção de gatilhos para armas nucleares tivesse o apoio de Obama, o governo Trump propôs aumentar os recursos dedicados à iniciativa em 72% e remodelar o complexo do Departamento de Energia à beira do rio Savana, no condado de Aiken, Carolina do Sul.

O plano prevê a produção de pelo menos 80 esferas por ano: 50 perto do rio Savana e 30 em Los Alamos, no Novo México.

A expectativa é que o Senado aprove no final do mês a legislação que autorizaria a liberação inicial de US$ 1,4 bilhão solicitados pelo governo Trump. A Câmara de Deputados trabalha em uma versão própria que contempla a mesma quantia, mas pode estar sujeita a emendas porque parlamentares democratas expressaram reservas sobre o plano.

A NNSA pode decidir sobre o plano para o complexo no rio Savana no quarto trimestre.

A comunidade próxima ao rio Savana está dividida entre os que estão preocupados com a contaminação e os que anseiam por empregos em meio à pandemia. O complexo ainda é um dos maiores empregadores do estado, produzindo material nuclear para fins não armamentistas desde 1988, incluindo o programa espacial e iniciativas de medicina e pesquisa. A produção de esferas no local criaria mais de 1.000 empregos.

Mas o complexo, com cerca de 800 km2, é apontado como prioridade para limpeza pelo fundo maior da Agência de Proteção Ambiental desde 1989, em parte devido aos 140 milhões de litros de resíduo líquido altamente radioativo armazenado em tanques no local.

No entanto, o conselho do condado de Aiken aprovou duas vezes e por unanimidade as resoluções de apoio à retomada da produção de esferas de plutônio.

©2020 Bloomberg L.P.