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Pandemia piora situação de trabalhadores com deficiência nos EUA

Olivia Rockeman e Catarina Saraiva

20/07/2020 13h03

(Bloomberg) -- A pandemia global está agravando um mercado de trabalho que já impõe obstáculos aos trabalhadores com deficiência.

Para os quase 30 milhões de cidadãos com deficiência em idade ativa nos Estados Unidos, a grande maioria das oportunidades de emprego reside em serviços de alimentação, hospitalidade e varejo. Mas quando lockdowns paralisaram esses setores, os trabalhadores com deficiência viram rapidamente seus empregos desaparecerem.

Durante o pico de perdas de emprego induzidas pela pandemia, 18,9% dos americanos com deficiência estavam desempregados, em comparação com 14,3% da população sem deficiência, de acordo com dados não ajustados de abril do Escritório de Estatísticas de Emprego. Em junho, quando os estados começaram a reabrir suas economias, a taxa de desemprego para americanos com deficiência caiu para 16,5%, enquanto a taxa para todos os demais caiu para 11% - sinalizando uma recuperação mais rápida para a população em geral do que para as pessoas com deficiência.

"Com a recuperação, estamos vendo algumas empresas e indústrias levarem de volta primeiro as pessoas que podem trabalhar em período integral e realizar uma ampla variedade de tarefas", disse Thomas Golden, diretor executivo do Instituto Yang-Tan de Emprego e Deficiência da Universidade de Cornell. "Isso marginaliza ainda mais a população com deficiência que estava trabalhando em período parcial ou realizando tarefas específicas".

'Muito, muito difícil'

Dos americanos com deficiência empregados em 2018, a maior parte tinha deficiência auditiva, 53,6%, seguida por deficiência visual, 45,4% e déficit de locomoção, 25,6%, segundo análise da Cornell.

Sherry Bell estava trabalhando como zeladora em uma pista de gelo em Bakersfield, Califórnia, quando recebeu licença em março. Bell, que possui deficiência intelectual que afeta a velocidade com que aprende novas tarefas, diz que a comunicação no local de trabalho foi um desafio no passado, com alguns de seus chefes não explicando adequadamente o que era esperado dela e outros falando com ela de maneira desrespeitosa.

Bell agora está recebendo benefícios de desemprego e está trabalhando com a PathPoint, uma organização sem fins lucrativos para californianos com deficiência de desenvolvimento com a qual está envolvida há cinco anos. Ela está tentando encontrar um emprego para complementar sua renda. Mas nem sempre é fácil encontrar ambientes de trabalho que acomodem sua deficiência.

"Foi muito, muito, muito difícil", disse Bell, 37 anos, ao adaptar sua deficiência em empregos anteriores. "Alguns chefes eram bons, outros não."

A população com deficiência enfrenta barreiras de entrada quando se trata de encontrar trabalho, porque nem todos os empregadores fornecem adaptações necessárias, disse Golden. Por esse motivo, apenas um quinto dos americanos com deficiência acima de 16 anos são incluídos na força de trabalho, de acordo com dados da taxa de participação da força de trabalho do Escritório de Estatísticas de Emprego.

Enquanto uma grande parte dos trabalhadores com deficiência foi dispensada de empregos em lojas de varejo e restaurantes, outra parcela optou voluntariamente por sair devido a condições pré-existentes que a tornou vulnerável a doenças, disse Philip Kahn-Pauli, diretor de políticas e práticas da RespectAbility, organização sem fins lucrativos que promove oportunidades para pessoas com deficiência.

Muitos americanos com deficiência dependem do transporte público para se deslocar, então pararam de trabalhar para limitar a exposição e evitar levar o vírus para casa.

"Existe um medo razoável - a maioria das mortes são pessoas com uma condição pré-existente", disse Kahn-Pauli.

Alguns trabalhadores com deficiência que perderam o emprego e não conseguem encontrar imediatamente um novo acabam solicitando complemento de renda de seguridade social. O problema é que pode levar até três anos para terem direito a esses benefícios, disse Golden, pesquisador da Universidade de Cornell.

Como milhões de americanos não estão trabalhando como resultado da pandemia, não estão pagando impostos para a seguridade social, o que significa que a renda do fundo não está crescendo, disse Golden. Isso poderia ter um impacto a longo prazo na solvência do fundo e ameaçar benefícios no futuro. A Administração de Seguridade Social pagou um recorde de US$ 145 bilhões em benefícios relacionados à deficiência no ano passado.

Um ponto positivo para os trabalhadores com deficiência pode ser a ampla aceitação do trabalho em casa, disse Pauli. Embora muitos americanos com deficiência tenham problemas para chegar a um escritório, eles podem trabalhar com mais facilidade em um computador em casa, o que abre caminhos que não existiam antes. Apesar desse benefício, Pauli diz que está preocupado com a segurança econômica da população à medida que a recessão continua.

"Se essa crise continuar a longo prazo, poderemos ver muitas dificuldades antes que as pessoas comecem a obter os benefícios", disse Pauli.

©2020 Bloomberg L.P.