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Correção: TV chinesa relega Premier League a canal secundário

Bloomberg News

23/07/2020 07h47

(Bloomberg) -- (Corrige reportagem para informar no título e do primeiro ao quarto parágrafos que a Premier League foi transferida do principal canal de esporte da CCTV para um canal secundário HD que tem menor audiência. Fornece mais detalhes e esclarece dados da programação sobre futuros jogos do quarto parágrafo em diante).

A televisão estatal chinesa decidiu transferir a transmissão dos jogos da Premier League inglesa de seu principal canal de esporte para um com menor audiência, um sinal de que o lucrativo mundo do futebol profissional está sendo envolvido nas relações cada vez mais tensas entre os governos de Pequim e do Reino Unido.

A rede CCTV, que tem os direitos de transmissão dos jogos da Premier League na China, não transmitiu o jogo entre o Liverpool e o Chelsea no seu principal canal de esporte, o CCTV-5, como planejado na quinta-feira pela manhã, disse uma pessoa a par da decisão. O jogo foi transferido para o CCTV-5+, um canal de alta definição considerado uma oferta de esporte secundária da emissora, disse a pessoa, que pediu para não ser identificada.

Não está claro se o CCTV-5, principal canal de esporte, irá exibir o restante da atual rodada da competição, disse a pessoa. Ainda há uma rodada final de jogos na temporada da Premier League, prevista para este fim de semana.

A programação no site principal da emissora mostra que um jogo entre o Leicester City e o Manchester United será exibido no canal HD no domingo, no horário local, mas a partida não está listada na programação do canal principal CCTV-5.

A medida ocorre em meio à deterioração das relações entre os dois países nas últimas semanas. O governo do primeiro-ministro Boris Johnson vetou a gigante de telecomunicações Huawei Technologies e mostrou oposição à nova lei de segurança imposta em Hong Kong. O Reino Unido e os EUA - que também adotam uma postura de maior confronto com a China - debateram a criação de uma coalizão de países para fazer frente à Pequim.

Representantes da CCTV não responderam imediatamente a pedidos de comentários. Representantes da Embaixada britânica em Pequim e da Premier League não comentaram. A mudança não parece incluir plataformas de streaming, pois a partida Liverpool-Chelsea foi exibida no aplicativo de vídeo chinês PPTV.

Essa não seria a primeira vez que esportes competitivos são envolvidos na geopolítica. No ano passado, a CCTV suspendeu a cobertura das partidas de basquete da NBA devido a comentários de um representante de uma equipe em apoio a manifestantes pró-democracia em Hong Kong.

"Dado o que estamos começando a ver aqui e os problemas com a Huawei, a realidade lamentável é que o futebol pode ser pego no fogo cruzado", disse à Rádio Bloomberg Simon Chadwick, diretor de Eurasian Sport do Centro para a Indústria Esportiva Eurasiana.

As tensões entre Reino Unido e China têm aumentado há um tempo, sendo o futuro de Hong Kong - uma ex-colônia britânica - o principal ponto de conflito. A lei de segurança de Hong Kong, que inclui sentenças de prisão perpétua por crimes como separatismo ou subversão, suprimiu quase todos os protestos em massa e ameaça salvaguardas e liberdades que a cidade tinha garantidas pelo menos até 2047 como parte do acordo de devolução de Hong Kong.

'Palavras equivocadas'

O Reino Unido proibiu a venda de armas para Hong Kong, suspendeu seu tratado de extradição com a cidade e convidou três milhões de cidadãos de Hong Kong para se candidatarem à cidadania no Reino Unido. A China acusou o governo britânico de agir como marionete do governo Trump. O porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Wang Wenbin, disse a repórteres nesta semana que o governo de Londres deveria evitar "palavras e ações equivocadas".

As relações entre EUA e China pioraram nesta semana. Na quarta-feira, o governo do presidente Donald Trump ordenou o fechamento do consulado chinês em Houston, marcando mais um agravante no confronto. O governo de Pequim ameaçou retaliar.

Embora o futebol como esporte não seja tão desenvolvido na China quanto em muitos países da Europa ou da América do Sul, o país é visto como um mercado com enorme potencial de crescimento. O presidente chinês Xi Jinping é fã do esporte.

Alguns dos principais times da Inglaterra, como o Manchester United, têm milhões de fãs na China e operam lojas no país. A Premier League aumentou significativamente sua popularidade na Ásia nos últimos anos, organizando várias vezes um torneio oficial de pré-temporada na região. O Manchester United e o Tottenham Hotspur viajaram para Xangai para um jogo de exibição em 2019.

No passado, o Reino Unido também usou o futebol como ferramenta diplomática, agradando Xi com uma visita ao Manchester City que resultou em um selfie com o jogador Sergio Aguero ao lado do presidente chinês e do então primeiro-ministro David Cameron.

A iniciativa da CCTV, principal emissora estatal, pode impactar um plano de Xi de 2015 para transformar a China em uma superpotência do futebol. Essa proposta levou empresas como a gigante chinesa de entretenimento Dalian Wanda a investir milhões de dólares em clubes estrangeiros - uma tendência que diminuiu após o maior controle do governo de Pequim sobre saídas de capital.

Alguns clubes ingleses como Manchester City, Southampton e West Bromwich Albion ainda contam com magnatas ou empresas chinesas como investidores. O Fosun, controlado pelo bilionário Guo Guangchang, é dono do Wolverhampton Wanderers FC.

Na polêmica envolvendo a NBA no ano passado, o tuíte deletado posteriormente por Daryl Morey, gerente-geral do Houston Rockets, apoiando manifestantes de Hong Kong, provocou uma reação de empresas e fãs chineses. Os patrocinadores locais retiraram o apoio à NBA, enquanto o comissário Adam Silver defendeu o direito de Morey à liberdade de expressão. A CCTV ainda não exibe alguns jogos da NBA na China.

Silver disse posteriormente que a crise na China trouxe prejuízos "significativos" para a NBA.

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