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Mulheres ainda estão fora do comando no varejo da Europa

Ruth David e Deirdre Hipwell

27/07/2020 16h16

(Bloomberg) -- Se existe um setor em que as mulheres deveriam estar dando as ordens, é o varejo. Afinal, elas são as maiores clientes e representam uma grande parte da força de trabalho.

No entanto, as mulheres ainda estão ausentes dos postos corporativos nas varejistas da Europa, e Melanie Smith teme que o vírus tenha piorado esse quadro.

"Muitas coisas que vi me deixam preocupada com o fato de que as mulheres podem ter regredido 20 anos durante a pandemia", diz a diretora executiva da loja online britânica Ocado Retail e uma das poucas mulheres líderes do setor na Europa. Ela observou que as mulheres carregavam grande parte do fardo das tarefas domésticas e dos cuidados com as crianças durante o isolamento social, deixando-as com menos tempo para suas carreiras.

Mesmo antes da Covid-19, uma década de esforços para a igualdade de gênero colocou apenas um punhado de mulheres em cargos executivos importantes no setor de varejo europeu. No Reino Unido, nenhuma varejista do índice FTSE 350 é administrada por uma mulher. No continente, apenas 3% das 87 principais empresas de bens de consumo e varejo são administradas por mulheres, de acordo com um relatório divulgado em janeiro pela European Women on Boards, apoiada pela União Europeia.

Estudos feitos ao longo dos anos mostram que, globalmente, as mulheres movimentam entre 70% e 80% de todas as compras dos consumidores. Elas também compõem a maior parte da força de trabalho do setor de varejo. Uma pesquisa da Bloomberg das duas principais dúzias de empresas de varejo, moda e luxo listadas na Europa constatou que as funcionárias representavam, em média, 63% da força de trabalho. No entanto, menos de um quarto dessas empresas tinha mulheres em cargos de liderança.

A alemã Adidas, que conta com Beyonce entre seus embaixadores, a Zalando, que vende principalmente roupas e acessórios femininos, e a varejista de óculos Fielmann, cuja força de trabalho é cerca de 72% feminina, não têm mulheres em seus conselhos de administração. O mesmo se aplica à fabricante holandesa de óculos GrandVision e à empresa suíça de artigos de luxo Richemont. As dez principais redes de supermercados da região, do alemão Schwarz Group e Carrefour na França até a britânica Tesco e a Ahold Delhaize na Holanda são lideradas por homens.

À medida que a Europa emerge lentamente das garras da pandemia, Angela Cretu, CEO da Avon, diz que a crise aumentará as oportunidades para as mulheres. "A era de passar oito horas por dia em um determinado local e ir e voltar do trabalho já passou e nunca voltará da mesma maneira."

Em 2016, o presidente do conselho de administração da Richemont, Johann Rupert, disse que queria menos franceses grisalhos administrando a empresa suíça de artigos de luxo. Não fazia sentido, para o proprietário de marcas como Cartier e Chloé, a alta costura ter tomadores de decisão que não espelhavam sua base de clientes, disse ele.

Quatro anos depois, dois terços do comitê executivo sênior da empresa, liderado pelo CEO Jerome Lambert, ainda é francês. Todos os seis executivos do comitê são homens e cinco têm 50 anos ou mais. No conselho de governança do grupo, apenas quatro dos 20 membros são mulheres.

As mulheres na extremidade inferior do espectro de trabalho foram atingidas com mais força durante a pandemia, à medida que os empregos do setor de varejo eram cortados.

"Elas tendem a estar super-representadas em formas precárias de emprego, como trabalho em meio período, curto prazo ou mesmo sem documentos", disse Oliver Roethig, secretário regional do sindicato UNI Europe.

Existem boas razões comerciais para promover as mulheres. Grandes empresas no Reino Unido cujos conselhos executivos têm um terço do sexo feminino são, em média, 10 vezes mais rentáveis do que os conselhos formados por homens, de acordo com a consultoria The Pipeline. Empresas como Richemont, Zalando, Adidas, Fielmann e GrandVision dizem que estão trabalhando para alcançar maior igualdade de gênero.

Na Kering, dona da Gucci, as mulheres representam 63% de seu quadro de funcionários, 55% das funções de liderança do grupo, 33% do comitê executivo e 60% do conselho de administração. Da mesma forma, na LVMH, as mulheres agora ocupam 44% dos cargos de liderança sênior, em comparação com apenas 23% em 2007, de acordo com seu último relatório anual.

Natalie Massenet, que criou o portal de moda Net-A-Porter Ltd. e co-fundou a Imaginary, diz que muitas marcas de luxo foram estabelecidas e "construídas por homens e não vão se substituir".

Ela acredita que o setor de varejo está se tornando mais inclusivo e que a pandemia alimentará esse momento positivo. "Eles estão contratando muitas mulheres na Kering e na LVMH e acho que não demorará muito para vermos o surgimento de um conglomerado de luxo liderado por mulheres", disse. "A mudança está acontecendo."

Em janeiro, a sueca Hennes & Mauritz AB, ou H&M como é amplamente conhecida, nomeou Helena Helmersson como a primeira mulher CEO da pioneira da fast-fashion. Outras mulheres de destaque no setor incluem Anne Pitcher, diretora administrativa do grupo Selfridges no Reino Unido, Sharon White, presidente da empresa de supermercados John Lewis Partnership Plc, e Kate Swann, uma figura bem conhecida no varejo britânico que anteriormente liderava o grupo de jornais WH Smith Plc e a empresa de catering SSP Group, e agora preside a Moonpig, empresa de cartões de felicitações on-line.

Ainda assim, é um grupo lamentavelmente pequeno de mulheres em um mar de homens. Os principais obstáculos permanecem, diz Smith, da Ocado, acrescentando que é necessária maior flexibilidade em tudo, desde a licença parental compartilhada até o trabalho em casa.

"Minha crença fundamental é que, se pudermos apoiar os pais, não apenas as mulheres, para cuidar das famílias e dos filhos, equilibraremos o jogo ao longo do tempo."

©2020 Bloomberg L.P.