Coração petroleiro do Canadá vive grave crise por queda de preços do petróleo

Julio César Rivas.

Toronto (Canadá), 6 fev (EFE).- A derrubada dos preços do petróleo e a evaporação dos investimentos no setor estão provocando uma grave crise no coração petroleiro do Canadá, a província de Alberta, com profundas implicações políticas no país.

Na próxima semana, o governo canadense deve oferecer detalhes de sua promessa de acelerar a injeção de cerca de 1 bilhão de dólares canadenses (US$ 730 milhões) em Alberta para amortecer o impacto da crise que abala aquele que já foi o principal motor econômico do Canadá.

A situação é um giro de 180 graus com relação ao período de florescimento que essa província canadense viveu durante a última década.

O território contém as terceiras maiores reservas de petróleo do mundo (atrás apenas das de Venezuela e Arábia Saudita) em forma de areias betuminosas, e os elevados preços do petróleo durante esse tempo provocaram uma explosão de investimentos para desenvolver os jazidas.

Entre 1999 e 2013, cerca de US$ 200 bilhões foram investidos no setor petroleiro de Alberta. E apenas em 2013 o número anual de investimentos alcançou US$ 32 bilhões.

A bonança econômica atraiu dezenas de milhares de pessoas do Canadá e do exterior para trabalhar na afortunada economia de Alberta, desde garçons a operários da construção, passando por engenheiros e outros profissionais de elevadas qualificações.

Ao mesmo tempo, o Canadá foi governado por um primeiro-ministro - Stephen Harper - e um Partido Conservador com raízes físicas e ideológicas na província do oeste, o que se traduziu em concessões de todos os tipos para o setor petroleiro.

Uma destas concessões foi a decisão de Harper de tirar o Canadá do Protocolo de Kioto para permitir o desenvolvimento sem dificuldades das jazidas de Alberta.

Mas a dramática queda dos preços do petróleo no último ano, com o preço do barril agora em torno de US$ 30, 70% a menos que em meados de 2014, pôs fim à época de vacas gordas, o que está tendo profundas implicações políticas para o país.

Na sexta-feira, o órgão público de estatísticas do Canadá (EC) divulgou os números de emprego no país durante o mês de janeiro, que constataram a rápida deterioração em Alberta, onde foram extintos 10 postos de trabalho em janeiro. Nos últimos 12 meses, Alberta perdeu um total de 35 mil vagas.

A taxa de desemprego, que no final de 2014 era de 4,5%, passou para 7,5% e alcançou assim o nível mais alto em 20 anos - além de ter ficado pela primeira vez desde 1988 acima da média nacional.

Eric Lascelles, economista-chefe da RBC Global Asset Management, uma das principais instituições financeiras do país, afirmou após a revelação dos dados de janeiro que "Alberta está claramente em uma recessão e já estava há algum tempo".

E a situação piorará ao longo de 2016, já que algumas das multinacionais que operam nas jazidas das areias betuminosas de Alberta, como British Petroleum e Exxonmobil, anunciaram que eliminarão mais postos de trabalho em um setor que já perdeu 40 mil empregos desde 2014.

Alberta, que há gerações considera que Ottawa não presta suficiente atenção a seus problemas e que em muitas ocasiões acredita que Ontário e o Québec conspiraram para tirar suas riquezas, solicitou ao governo federal ajuda econômica e política.

Paradoxalmente, o novo primeiro-ministro canadense, o liberal Justin Trudeau, é filho do ex-primeiro-ministro Pierre Trudeau, uma das figuras mais detestadas em Alberta porque sua decisão de criar em 1980 o Programa Nacional de Energia foi interpretada na província como uma tentativa de nacionalização do setor.

Mas a maior reivindicação de Alberta tem foco na exportação de petróleo, para a qual precisa da construção de oleodutos.

Os Estados Unidos bloquearam a construção do oleoduto Keystone XL, que ligaria as jazidas com as refinarias americanas do Golfo do México, o que representou um grave golpe para o setor.

E as províncias canadenses do Québec (no leste do país) e Colúmbia Britânica (a oeste de Alberta) se negam a aprovar, por razões ambientais, a construção de outros oleodutos para transportar o petróleo das areias betuminosas a outros mercados, o que acrescenta mais problemas políticos para Trudeau.

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