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Efeitos da reestruturação industrial já começam a ser sentidos na China

05/03/2016 08h50

Paloma Almoguera.

Fangshan (China), 5 mar (EFE). - A China confirmou neste sábado os planos para reduzir o enorme excesso de capacidade industrial do país, um processo que já teve início em algumas regiões e que provoca tensão nos setores mais afetados, carvão e siderurgia, nos quais está prevista a demissão de cerca de 2 milhões de pessoas.

A mina "Chang Gou Yu", que fica a cerca de 60 quilômetros da Praça da Paz Celestial, em Pequim, ainda opera normalmente com um tráfego incessante de caminhões lotados de carvão. Mas a movimentação se encerrará em questão de semanas já que, por ordem das autoridades, ela fechará suas portas no fim deste mês.

Yang, que prefere se identificar apenas pelo sobrenome, trabalha como motorista transportando carvão da mina até a capital. Enquanto espera que seus companheiros carreguem o veículo, ele disse à Agência Efe que teme a principal consequência do fechamento: o desemprego.

Dos 1,8 milhões de demissões previstas no país só nos setores de carvão e do aço, cerca de 1,3 milhões perderão seus trabalhos após o fechamento das mais de 1.000 minas de carvão que terão suas atividades encerradas neste ano, com o objetivo de reduzir a grave poluição que atinge grande parte do território chinês.

O trabalhador critica que a exploração do carvão seja um dos segmentos mais afetados, já que alega que as minas chinesas "produzem carvão de qualidade e pouco prejudicial ao meio ambiente".

Um dos companheiros de Yang, Wei, se une à conversa e se mostra mais nervoso. Além de lamentar a perda do emprego com o fechamento da mina, ele se mostrou descrente sobre os subsídios prometidos pelo governo chinês aos desempregados.

"Nós sequer recebemos os subsídios para calefação devido à corrupção", denunciou Wei à Efe.

O fundo de 100 bilhões de iuanes (US$ 15,3 bilhões) para ajudar os desempregados após a reestruturação industrial, que hoje foi citado pelo primeiro-ministro do país, Li Keqiang, durante a abertura da sessão anual do Legislativo, ainda soa como uma promessa distante para os trabalhadores em Fangshan.

"Eu não quero que fechem as minas. Não teremos o que queimar no inverno e o carvão é muito mais barato que a eletricidade", disse um morador do distrito, Tian, que afirma estar há anos desempregado.

O diretor de comunicação da ONG China Labour Bulletin, Geoff Crothall, alerta que as demissões provocarão agitação no país se as pessoas não forem contempladas pelas indenizações previstas pela lei ou pela ajuda de reintegração ao mercado de trabalho prometida.

"No caso dos setores do carvão e do aço, o problema é pior pelo fato de as empresas não terem dinheiro para pagar os trabalhadores. Elas terão que ser resgatadas pelos governos locais", indicou Crothal à Efe.

O primeiro-ministro também se referiu hoje ao problema citado pelo diretor da ONG, o das chamadas "empresas zumbis", companhias deficitárias que sobrevivem graças ao apoio das autoridades locais. Li afirmou que o governo tomará medidas para solucionar a questão, promovendo fusões, reorganizações e a venda de parte delas.

O chefe do governo da China garantiu que o processo de restruturação da indústria será efetuado de forma "proativa, mas prudente". Porém, um dos cenários mais temidos pelo regime é enfrentar uma situação de instabilidade para promover a reforma.

No entanto, nem todos são contrários à proposta do governo. Na mina de "Mu Chen Jian", a cerca de 40 quilômetros de Pequim, que será fechada no fim deste ano, alguns defendem a medida, já que ela diminuirá a poluição e melhorará a qualidade da água.

A luta contra a poluição um dos principais objetivos da China, que pela primeira vez decidiu impor um limite no consumo de energia anual para o período 2016-2020, na busca para reduzir o consumo de carvão e para conseguir, como disse hoje Li, um "país belo".