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Escassez de alimentos e altos preços levam venezuelanos a mudar seu cardápio

Laura Barros.

Caracas, 7 jun (EFE).- As dificuldades para comprar e o orçamento cada vez mais apertado obrigam os venezuelanos a ajustar diariamente seu cardápio, que em muitas ocasiões não é preparado com o que preferem, mas com o que "se consegue" ou com o que cabe no bolso.

Carne, frango, queijos e até ovos se transformaram em produtos de luxo para muitas famílias que, com um salário básico de 15.051 bolívares (US$ 1.505 na taxa mais baixa do mercado oficial e US$ 27 na mais alta), precisam organizar as contas para adquirir algum destes artigos.

"Eu não como arroz há 15 dias, porque não tenho arroz", disse à Agência Efe uma dona de casa em um mercado popular que abre aos sábados em Los Palos Grandes, região no leste de Caracas, e que admitiu que substitui o ingrediente que é tradicional nas mesas venezuelanas por batatas, embora não "rendam" o mesmo.

Esta mulher relatou com resignação que em sua casa não tem açúcar nem leite e que espera o retorno de sua mãe, que está em viagem ao Panamá, para encher sua despensa.

"Ontem fui a uma fila e a única coisa que estavam vendendo eram dois quilos de farinha de trigo", comentou antes de lamentar ter perdido o dia no qual, de acordo com o número de seu cartão, poderia ir ao supermercado para comprar artigos da cesta básica.

Enquanto esperava por um quilo de carne bovina a 4.800 bolívares (US$ 480 ou US$ 8,8, segundo a taxa), a mulher comenta que antes era comum observar uma fila longa neste mercado pela quantidade de compradores.

"Agora o povo compra somente o necessário", complementou um açougueiro, que calcula que as vendas de carne e frango "diminuíram quase 50%", enquanto as de peixe caíram muito mais.

Segundo este homem, que disse viver na região popular de Caricuao, o salário "não dá". "Dois quilos de bife é (quase) o salário mínimo", contou o açougueiro.

Próximo a uma fila para comprar frangos, outra mulher, que garantiu que é médica de profissão, declarou à Efe que tem comprado mais vegetais do que carnes.

"Não compro a mesma quantidade de antes, mas falei com meus filhos que já são grandes: 'Vamos comer menos, não comemos mais dois bifes, agora só um; não comemos proteína três vezes por semana, agora comemos duas'. E assim estamos", relatou a mulher, que já não vai aos supermercados porque seu horário de trabalho não lhe permite entrar em longas filas.

Como médica, lamentou que os menores na Venezuela "estão comendo menos" e alertou que "as crianças venezuelanas estão crescendo dois centímetros a menos".

"As mães têm desnutrição", apontou esta venezuelana ao comentar que "sem boa nutrição, não se tem boa aprendizagem, e sem aprendizado a cadeia de desnutrição e de falta de conhecimento persiste".

A afirmação desta venezuelana se contrapõe com a da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), que premiou a Venezuela no ano passado por reduzir, entre 1990 e 2015, a taxa de pessoas que passam fome no país para cerca de 5% da população, o equivalente a 30 milhões de habitantes.

Também no mercado, mas como vendedor, César relatou as dificuldades que enfrenta para adquirir seus produtos.

"Alguns de nossos fornecedores tiveram problemas particularmente com a farinha de trigo", afirmou o vendedor, que indicou que no caso da farinha de milho pré-cozida, precisa de aproximadamente 30 quilos por semana, mas nos supermercados só é possível comprar de dois em dois.

Perante esta realidade e para não fechar o negócio do qual dependem outras cinco famílias além da sua, César afirmou que teve que pagar com sobrepreço os "bachaqueros", como são conhecidos no país os que revendem produtos da cesta básica.

Já Alicia, que em um pequeno posto oferece molhos e refeições gourmet, admite ter inconvenientes para comprar as garrafas nas quais vende seus produtos, assim como o sal, o açúcar e o azeite que usa como base para suas receitas.

No entanto, ela ressaltou que está inventando "coisas novas" o tempo todo em seu negócio, tanto no preparo de seus produtos como para contornar a escassez.

"Nós venezuelanos temos uma coisa, nós não paramos por nada (...), ao venezuelano, graças a Deus, quando se fecha uma porta abrem-se cinco janelas", concluiu a empreendedora.

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