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"Boom" turístico sacode a tradicional Lisboa

Óscar Tomasi.

Lisboa, 16 jun (EFE).- Ruas pavimentadas, edifícios revitalizados, dezenas de novos hotéis, milhares de turistas pelas vias estreitas, "tuk-tuks" que circulam por caminhos íngremes, bondes lotados de estrangeiros e velhas tascas transformadas em locais "gourmet".

Este é o panorama que o centro de Lisboa apresenta hoje, uma cidade frequentemente qualificada de tradicional, muito presa às suas raízes, com um caráter profundamente ligado aos bairros e cuja fisionomia está mudando de forma visível devido a sua condição de destino turístico da moda.

Os edifícios derruídos e em mau estado - normalmente no Centro Histórico - estão sumindo graças à reabilitação, e o turismo se transformou na principal atividade econômica da cidade. No entanto, um crescente número de vozes alerta para as consequências deste fenômeno e reivindicam limites para que a capital de Portugal não perca sua essência.

Os quatro milhões de visitantes estrangeiros registrados em 2015, um novo recorde - e que continua subindo -, contrastam com os pouco mais de 500 mil moradores que tem Lisboa, número que chega a 1,5 milhão se a área metropolitana for incluída.

Esta tendência representa também uma revolução no mundo imobiliário, que vive um "boom" praticamente inédito, em oposição à letargia da construção nos anos de crise.

Ao calor da explosão de lisboetas que alugam quartos em seus próprios apartamentos através de novas plataformas da internet, os preços tenderam a subir de forma exponencial e as imobiliárias estimam um aumento no preço do aluguel de 30% a 40% desde 2014.

Por trás do "boom" do setor imobiliário está fundamentalmente o investimento estrangeiro, responsável por quase 80% de toda a atividade. Segundo dados de um relatório da PricewaterhouseCoopers (PwC), os números são "impressionantes para o contexto português, que nunca tinha recebido" tantos fundos procedentes do exterior.

A própria prefeitura de Lisboa calcula que um apartamento de um quarto no centro ronda agora os 800 euros (pouco mais de R$ 3 mil), um valor praticamente igual ao salário líquido médio de um trabalhador português.

Esta pressão de alta de preços agravou a saída de moradores do centro histórico, totalmente voltado a atender turistas. Os armarinhos, os bares clássicos e até os açougues deram lugar às lojinhas de presentes, aos "gastrobares" e ao comércio das grandes marcas de roupa mundialmente conhecidas.

"Estamos transformando Lisboa em um parque temático, uma espécie de Disneyworld", advertiu o pesquisador urbano Luís Mendes, professor no Instituto de Geografia e Regulação do Território da Universidade de Lisboa.

Mendes acrescentou que existe uma "turistificação" da cidade que "está acelerando o processo de expulsão de antigos moradores dos bairros históricos para zonas periféricas".

Em sua opinião, uma lei antiga que permite aos proprietários encerrar o contrato com o inquilino com relativa facilidade e uma legislação sobre alojamentos turísticos informais demais são dois importantes fatores neste processo.

"A maior parte dos desalojamentos não é direto, e sim indireto, já que à medida que a região se revitaliza, desaparecem as lojas de bairro. E assim fica uma população pobre, com pouca mobilidade, sem serviços próximos e cuja rede de amigos estava no bairro", lamentou.

Tanto no Bairro Alto quanto em Alfama, dois dos bairros mais típicos da cidade, é cada vez mais difícil ouvir o português, segundo os presidentes das respectivas associações de moradores.

A multiplicação de rotas com companhias aéreas de baixo custo, a chegada em massa de cruzeiros, o reforço da estratégia de promoção internacional, preços competitivos em comparação a outras partes da Europa e a crise que vivem destinos como Tunísia e Egito são algumas das razões do sucesso turístico luso.

Uma pesquisa realizada pelo Observatório de Turismo de Lisboa com visitantes estrangeiros em 2014 concluiu que a característica mais significativa da cidade era, com ampla vantagem, a "autenticidade". Dois anos depois, essa marca parece agora correr risco de extinção. EFE

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(foto)

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