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Mais de 2,5 mil mineiros chilenos fazem greve a 3,3 mil metros de altitude

Júlia Talarn Rabascall.

Antofagasta (Chile), 10 mar (EFE).- Há quase um mês, mais de 2.500 mineiros chilenos acampam a 3.300 metros acima do nível do mar, em pleno Deserto do Atacama, para exigir que a mineradora La Escondida, empresa para a qual trabalham, mantenha suas condições trabalhistas.

São trabalhadores sindicalizados da jazida que mais produz cobre no mundo, que há um mês paralisaram as atividades de extração para lutar contra o que consideram um "ataque contra sua dignidade", dando início assim a uma greve de tal envergadura que pode impactar inclusive no crescimento econômico do país.

"Estamos brigando para manter direitos e benefícios que conquistamos após muito trabalho. Levamos mais de duas décadas para conseguir o que temos, não vamos renunciar a isso tão fácil assim", disse à Agência Efe o mineiro Cristián Díaz.

Díaz é um dos 2.500 trabalhadores que acamparam em um terreno próximo à mina, situada a 150 quilômetros da cidade de Antofagasta.

O mineiro tem 44 anos e durante mais da metade de sua vida trabalhou como motorista de um caminhão de extração. Agora, convive com seus companheiros em uma área do deserto de quase oito hectares na qual levantaram "um pequeno povoado".

"Construímos banheiros e chuveiros, temos um serviço de alimentação e também áreas de lazer e reuniões", descreveu Carlos Allendes, líder do Sindicato Número 1, que reúne cerca de 2.500 trabalhadores, de um total de 4.500 pessoas que trabalham na jazida.

Usando plásticos, pedaços de madeira e um gerador, os trabalhadores construíram uma iluminação pública rudimentar, chuveiros, salas de reuniões e inclusive um campo de futebol, onde matam o tempo enquanto aguardam o reatamento das negociações sobre o convênio coletivo com a direção da empresa.

Os trabalhadores afirmam que a companhia, operada pela australiana BHP Billiton, está propondo um novo acordo que reduz em 14,5% seus salários e benefícios, e implementa cláusulas discriminatórias nos contratos dos novos trabalhadores.

Segundo analistas do setor e a direção da empresa, tais medidas se devem à necessidade de ajustar os custos de produção da mineração à realidade da baixa competitividade da indústria chilena.

Apesar de o cobre continuar sendo uma matéria-prima abundante no Chile, nos últimos anos as jazidas estão registrando uma menor proporção de metal puro, o que impactou nas estimativas de extração das mineradoras.

Além disso, um relatório da Comissão Nacional de Produtividade indicou que a produtividade total dos fatores no setor caiu 17% entre 2000 e 2014.

"Eu acho que isso são desculpas para justificar cortes. Pode cair toda a mineração deste país, mas a última que vai quebrar será La Escondida, porque tem reservas de mineral. Nós sabemos que aí dentro há um tesouro", destacou Allendes.

Essa visão é generalizada entre os trabalhadores acampados nos arredores da jazida.

"Estamos aqui por dignidade. Trabalhamos em condições extremas, temos graves problemas de saúde e temos que passar 15 dias por mês longe de nossas famílias. Não vamos renunciar às condições que conquistamos após tantos anos de luta", assegurou Cristián Díaz.

Os salários dos trabalhadores sindicalizados estão atualmente na faixa dos US$ 2,5 mil mensais.

Os mineiros exigem um aumento salarial de 7%, além de um bônus no valor de 25 milhões de pesos chilenos (cerca de US$ 37,8 mil), frente aos sete milhões (US$ 10,6 mil) que a empresa oferece.

Mas a principal controvérsia tem origem na concessão a trabalhadores novos dos benefícios aos quais os antigos têm direito.

Atualmente, as conversas entre a direção da empresa e os dirigentes sindicais estão paralisadas, o que poderia transformar esta greve em uma das mais conflituosas na história da mineração no Chile.

A vida no acampamento é "dura, mas ordenada", descrevem os grevistas. Durante o dia, as temperaturas podem chegar aos 36 graus, mas na noite caem até 6 graus abaixo de zero.

No meio da manhã "as ruas" estão desertas. Debaixo de alguns toldos, os mineiros jogam cartas e ouvem rádio. Os redemoinhos de poeira voam pelo acampamento antes de se perderem no deserto.

À medida que se aproxima a hora do almoço, o acampamento se agita com o alvoroço das caçarolas, pratos e panelas. Os mineiros saem de suas tendas e fazem filas em frente à cozinha coletiva, de onde exibem cartazes com palavras de ordem como "Vencer ou morrer".

"Vamos continuar aqui até o final. Estamos preparados e organizados para resistir mais um mês ou até dois. Daqui não nos retirarão", finalizou Díaz.

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