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Agricultores tentam adaptar plantações aos alagamentos de Bangladesh

26/12/2017 06h02

Belén Delgado.

Satkhira (Bangladesh), 26 dez (EFE).- No sul de Bangladesh, perto da fronteira com a Índia, agricultores passam boa parte da vida com as plantações completamente inundadas.

Até o ano passado, toda vez que um alagamento acontecia, Mahfuza Begum ficava em casa a maior parte tempo sem poder cultivar nada e fazendo as substituições que podia nas refeições.

"Quando eu quero sair, tenho que usar as tábuas de madeira para atravessar a água e chegar à estrada, em um terreno próximo e mais alto que o restante", relatou a agricultora à Agência Efe.

Lá as pessoas que tiveram as casas invadidas pela água são colocadas em refúgios temporários. O aumento do nível é um fenômeno cíclico no sudoeste do país. A casa de Mahfuza costuma ficar a salvo porque está localizada em um ponto mais alto do que o normal, em um local que tem água para todos os lados, seja em pequenas lagoas ou em amplas extensões.

Nessa região do sul, conhecida como um delta gigante, o rio Kapotakkha e seus afluentes mal têm força para levar suas águas para a foz, entre outros motivos pela extração hídrica que ocorre à medida que passa pela Índia.

A sazonalidade das correntes e a intrusão de água salgada nos aquíferos de água doce contribuem também pra as inundações, que a população assume como algo natural entre seis e oito meses do ano.

Para evitar que a vida pare por causa disso, quase seis mil agricultores pobres aprenderam a adaptar a produção que têm em um projeto da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) realizado em 2016.

Mahfuza foi uma das participantes. Hoje ela se sente orgulhosa de ter transformado um pequeno tanque esquecido da sua casa em um espaço para cultivar os próprios peixes.

"Agora tenho mais segurança financeira, posso conseguir excedentes e vender no mercado. Parte do dinheiro eu invisto na educação dos meus filhos", contou ela, antes acostumada a ficar sem comida e ter que comprá-la.

Os participantes, a maioria deles extremamente pobres, recebem formação para melhorar práticas agrícolas, pecuária, nutrição e noções de novas tecnologias adaptadas ao entorno. Entre as novidades estão sacos que elas podem usar para transportar as plantas quando a água sobe, hortas para cultivar alimentos mais caros no mercado e redes para apanhar o peixe antes que escape quando o lugar começa a alagar.

De acordo com o coordenador do projeto-piloto desenvolvido no distrito de Satkhira, Kaiser Khan, outra novidade para estas pessoas é o dinheiro que recebem depois que passam pelo curso. Os que vivem em situações extremamente precárias, sem possuir nem menos terra, recebem até US$ 150 (cerca de R$ 500). Com esse valor é possível comprar uma cabra, alguns insumos básicos e alimentos.

Embora Mohammed Mizanur já tenha um lote onde plante arroz, a ajuda dada e o pouco dinheiro que economizou permitiram que ele investisse em outras atividades. De todas as novidades que experimentou, a mais interessante foi a possibilidade de expandir as atividades nos setores de aves e na aquicultura.

"O arroz leva muito tempo para colher. Agora, posso conseguir renda muito mais rápido", declarou, mostrando o novo viveiro de galinhas e ressaltando já ter visto um aumento exponencial do lucro em apenas um ano.

Nessa luta contínua contra a invasão das águas, interesses muito diversos se chocam, entre agricultores que pedem para drená-las para ter mais terras cultiváveis e aquicultores satisfeitos com a situação atual.

De acordo com o responsável do governo local para a agricultura, Amjad Hussain, é "muito complicado" encontrar uma saída para o excesso de água. Em sua opinião, essa é uma "condição" com a qual Bangladesh tem que aprender a conviver e, como exemplo, ele citou as áreas que combinam aquicultura e agricultura em várias épocas do ano, dependendo de quão inundadas ficam as terras.

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