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Carrascos, execuções, massacres... Lisboa mostra seu lado sórdido

31/12/2017 06h01

Cynthia de Benito.

Lisboa, 31 dez (EFE).- Por trás do cenário amável e tranquilo da atualidade, Lisboa guarda um sórdido passado de carrascos, execuções coletivas e massacres, resgatado agora por um tour que pretende mostrar outra imagem e que evidencia que a sagacidade é mais um elemento da explosão do setor turístico vivido pela capital de Portugal.

O mais típico de Lisboa está entre três elementos - o bairro de Alfama, o fado e o litoral, que há anos são contados a turistas que, num centro já abarrotado, conhecem os pormenores do devastador terremoto de 1755 ou observam a mesa da cafeteria Brasileira, na qual o poeta Fernando Pessoa tomava seu café diário.

Tradição, definitivamente, sobre a qual se formaram os passeios que agora, com o auge do turismo, experimentam uma concorrência nova e crescente; tanto que os guia já suspeitam que a oportunidade vai requerer um pouco mais do que saber de História. E, assim, às margens do Tejo, floresceu o episódio macabro.

"Que fizeram então? Esfaquearam o bispo e o jogaram pelo campanário. Depois, arrastaram seu cadáver pela rua. Os cachorros o devoraram". Esta frase, pronunciada às portas da Catedral de Lisboa, faz com que dois turistas interrompam bruscamente sua pesquisa da melhor foto para olhar para quem a proferiu.

O autor é Marco Pedrosa, ator e guia que, há um ano, conta "o lado mais sombrio da cidade" em um passeio de uma hora e meia. Desde regicídio até execuções coletivas, passando por lendas truculentas sobre a criação de Lisboa, tudo o que for "sórdido" é explorado.



"Crimes de Lisboa" é o primeiro percurso temático da Wild Walkers e ideia original de Pedrosa, que destaca à Efe a originalidade da sua proposta.

"Fizemos este tour porque não existia um passeio que falasse dos aspectos mais sórdidos e sombrios da história da cidade. Normalmente os tours falam da sua história, como o terremoto, mas não se centram em aspetos mais trágicos ou personalidades mais sombrias", comentou Pedrosa.

E ele buscou suas histórias. O azarado bispo do que fala foi Martinho de Zamora, vítima de uma multidão furiosa no século XIV por ter se negado a repicar os sinos, como faziam as demais igrejas da cidade, para celebrar a aclamação como rei João I de Portugal, que ele desconhecia.

Junto ao bispo, se relata o fim do rei Carlos I, assassinado em 1º de fevereiro de 1908 na Praça do Comércio junto com seu filho, o príncipe herdeiro Luís Filipe de Bragança, o que deu lugar a uma escalada de violência em Portugal.

Ou a execução pública perto do Monastério de Belém, nos arredores de Lisboa, da rica família Távora, caída em desgraça ao ser acusada com grande controvérsia de um atentado frustrado contra o rei José I em 1758.

"Se chegou a jogar sal nas suas terras para que nada mais crescesse nela", acrescentou Pedrosa, incrementando a história, que ainda hoje é objeto de debate entre os historiadores portugueses.

Os macabros relatos, como as cruéis execuções da inquisição ou o massacre de 19 de abril de 1506, dia em que se iniciou uma perseguição que acabou em poucas semanas com o assassinato de mais de 3.000 judeus na cidade, convivem com desastres naturais, como o terremoto de 1755, e ainda lendas.

Assim, perto do pátio no qual Pedrosa mostra a casa do último carrasco de Lisboa, Luís Alves, se conta como a cidade chegou a formar as suas famosas costas; sem entrar em detalhes, é possível dizer apenas que o responsável foi um dos desamores causados por Ulisses em seu caminho a Ítaca.

O herói de Homero se mistura assim com os azulejos nas abarrotadas ruas de Lisboa, cidade na qual o turismo cresceu 7,2% em 2016, segundo dados oficiais.

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