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Bairro mexicano apela à devoção a "santa" para combater aluguéis abusivos

Eduard Ribas.

Cidade do México, 14 jan (EFE).- Para combater a especulação imobiliária, moradores de dois bairros na Cidade do México estão recorrendo à devoção a uma "santa" que defende inquilinos do despejo e protege o bairro das transformações urbanas.

Os devotos da Santa Mari La Juaricua, acrônimo dos nomes dos bairros centrais da capital mexicana Santa María La Ribera e Juárez, têm intensificado suas preces para tentar frear a transformação urbanística dos locais, que causa êxodo dos moradores mais antigos.

Os bairros passam pelo processo de gentrificação, em que imobiliárias compram antigas casas por pequenos preços para construir edifícios residenciais, que atraem novos moradores com elevado poder aquisitivo e, consequentemente, lojas "hipsters" e redes famosas de lanchonetes e restaurantes, aumentando a oferta cultural e subindo o valor dos aluguéis.

Como marco de denúncia e combate à gentrificação dos bairros, dois artistas mexicanos montaram a figura protetora da Santa Mari La Juaricua como uma forma de espalhar a ideia de devoção àquela que protege a vizinhança contra despejos.

"É uma santa pelo direito à moradia e com foco nos bairros se mantenham inclusivos", explicou à Agência Efe uma das artistas responsáveis pela criação da imagem, Sandra Valenzuela, enquanto carregava a figura de Santa Mari La Juaricua, que foi encontrada pela artista em sua forma "bruta" em um edifício abandonado e acabou repaginada na imagem da virgem.

A santa, que veste branco, têm as mãos em posição de oração, usa óculos e acessórios que simbolizam a chegada de novos moradores, um chapéu para se "proteger" do sol e é acompanhada por uma cachorrinha chamada Banqueta ("calçada", em português), que representa a recuperação do espaço público.

A ideia surgiu porque os moradores confundiam o processo de gentrificação com o progresso dos bairros e não se atentavam às consequências negativas que poderiam surgir, como a "expulsão" dos moradores que viviam antes da chegada de "população mais jovem, mais branca e com mais poder aquisitivo", segundo Valenzuela.

A santa foi exposta em 2016 na casa da artista, no bairro de Juárez, em um altar de frente para a rua, e a resposta dos vizinhos foi tão positiva que foram organizadas peregrinações de centenas de pessoas ao local.

"Seguindo a metáfora religiosa, a santa é uma maneira de evangelizar os habitantes que serão deslocados pelos preços e pelas transformações no bairro", explicou Jorge Baca, coautor do projeto.

Baca é morador antigo de Santa María la Ribera e sofreu com a gentrificação: em quatro anos, passou de pagar 325 pesos (cerca de 55 reais) em impostos anuais para 1.980 pesos (335 reais) bimestrais.

A diferença em relação a outros bairros gentrificados da capital mexicana como La Condesa, onde o aumento dos preços começou há aproximadamente 25 anos, é que em Santa María de la Ribera o processo foi muito acelerado, e os alugueis residenciais, que custavam em média 3.000 pesos (R$ 507), já ultrapassam 11.000 (mais de R$ 1,8 mil).

"Faz quatro anos que Santa María la Ribera se chamava Santa María la Ratera, porque era um bairro muito perigoso. Hoje é um bairro da moda para hipsters e artistas", descreveu Baca.

Este processo de especulação também afeta comércios históricos do bairro, que são substituídos por outros, mais modernos ou de grandes redes, que cobrem as necessidades dos novos moradores.

"A responsabilidade do governo da cidade é total, que teria que regulamentar a situação. No entanto, é o provocador do fenômeno", acusou Baca, que definiu o poder executivo local como "inimigo da vizinhança", porque permite a compra e especulação de moradias protegidas por lei.

Porém, tanto Valenzuela como Baca fazem a autocrítica de que, na condição de artistas e moradores acabaram contribuindo de certa maneira para o processo que vivem os bairros.

"Muitas vezes (os artistas) somos a ponta da lança da gentrificação. Ninguém é inocente. Nos mudamos para bairros patrimoniais cêntricos com rendas baratas e atraímos o investimento imobiliário e o encarecimento (do bairro)", argumentou Valenzuela.

Baca lamentou que os moradores mais antigos como ele têm certa culpa, porque "descuidaram do bairro", aumentando os índices de criminalidade e sujeira, o que provocou um barateamento da região para a chegada de investidores.

Por isso, os dois artistas lideram projetos de "hartivismo", já que se definem "cansados" da situação dos dois locais. Neles, fazem rituais de reverência à santa em espaços públicos como o Kiosko Mourisco de Santa María la Ribera, onde os moradores se encontram para dançar e deixar seus pedidos.

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