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Empreendedoras de Ruanda ganham mais espaço no campo

02/06/2018 09h56

Belén Delgado.

Cyahinda (Ruanda), 31 mai (EFE).- Cada vez com mais confiança em si mesmas, as mulheres de uma cooperativa da zona rural de Ruanda tentam deixar para trás a pobreza, administrando o próprio dinheiro e assumindo o direito de ter uma propriedade compartilhada.

Em uma remota área do sul do país, próxima da fronteira com o Burundi, um grupo de quase 190 pessoas, a maioria mulheres, reuniu fundos para comprar um terreno e construir um centro que, com a ajuda de agências da Organização das Nações Unidas (ONU), tem uma máquina de processamento. É a "cereja do bolo" em um contexto de extrema pobreza que, junto com um pequeno estoque, permitiu transformar milho em farinha, armazenar o produto e ainda vendê-lo com bom preço, de acordo com Alphonsine Bagenzi, presidente da cooperativa criada há dois anos.

E os benefícios não se traduzem apenas em bens materiais. Mais de 17 mil pessoas de oito distritos do país aprenderam em oficinas como melhorar a produção agrícola, a higiene, a nutrição, o planejamento do próprio negócio e a gestão financeira.

Em uma das paredes da cooperativa, já que nem todos sabem ler, um desenho explica passo a passo de como proceder em função do clima: trabalhar duro para depois economizar.

"Ainda precisamos de noções de como levar a cooperativa, mas o treino é útil", confessou à Efe Alphonsine, que citou como as duas principais dificuldades confiar em si mesma e trabalhar sozinha.

Para outra beneficiada do projeto o mais difícil foi interagir com as demais e superar a timidez. Depois que conseguiu isso, Beata, aderiu ao grupo, alugou um porco e fez uma série de investimentos: emprestou os filhotes, pagou os estudos da filha, comprou uma máquina de costura e depois, uma vaca.

Em Ruanda, as mulheres representam 46% da força de trabalho, conforme dados oficiais, com a agricultura como o principal setor. De acordo com a coordenadora nacional do programa conjunto da ONU para empoderar à mulher rural, Judith Katabarwa, desde 2015 a organização já ajudou a conduzir pequenas empresas, fomentando o trabalho em grupo, apesar do local ser isolado.

Para o diretor do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) em Ruanda, Francisco Pichon, antes de qualquer investimento nessas áreas é necessário "entender os papéis do homem, da mulher e do jovem na economia familiar e na economia local".

"As organizações podem desenvolver um dinamismo mobilizando economias, embora sejam pequenas", disse Pichon.

O que diferença Ruanda de outros países da África é a divisão equitativa da propriedade na família, de acordo a uma lei de 2005. Se antes as terras costumavam pertencer ao marido, atualmente devem ser metade para ele e metade para a mulher, com quem eles compartilham responsabilidades na casa e são as "chefes de família".

Jean, um dos poucos homens da cooperativa, revelou que já abriu mão de "mandar em casa".

"Um dia disse à minha mulher que as coisas não funcionavam assim. Então compramos uma pequena parcela de terra e colocamos no nome dos dois", disse.

Na prática, no entanto, é difícil garantir os direitos das mulheres na África subsaariana, onde apesar da integração no ambiente de trabalho elas ainda ganham 30% menos do que os homens, segundo a ONU. O trabalho não remunerado em casa, os cuidados com a família, a agricultura informal e os casamentos precoces são fatores que limitam a capacidade delas de obter renda.

A chefe de Igualdade de Gênero da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (Uneca), Ngone Diop, explicou que a chave é investir em educação em um continente onde mais de 20 milhões de meninas que moram em áreas rurais não frequentam a escola. Na sua opinião, as políticas públicas e a cooperação para o desenvolvimento devem ser dirigidas especificamente às mulheres do campo se o objetivo for realmente transformar a vida delas.

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