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Dunquerque, o laboratório bem-sucedido do transporte público gratuito

07/11/2018 09h58

Mireia Rom.

Dunquerque (França), 7 nov (EFE).- Nas ruas de Dunquerque se fala muito do transporte público, gratuito desde setembro, mas alguns não têm certeza se isso será suficiente para que mais cidadãos deixem o carro estacionado ou se a medida será sustentável a longo prazo.

A gratuidade não é inédita para essa região metropolitana do norte da França, onde os ônibus são gratuitos durante o fim de semana desde 2015, e tampouco para outros 31 municípios do país. Porém, com 200 mil habitantes e 17 comunas, Dunquerque é a maior aglomeração urbana da Europa a ter instaurado tal medida.

Em seus dois primeiros meses de funcionamento, a afluência de passageiros aumentou em 50% de segunda a sexta-feira e em 120% nos finais de semana, de acordo com dados oficiais.

É o caso de Claudia Athelstane e Claire Maes, estudantes do ensino médio: "Agora vamos ao centro com muito mais frequência e sem ter que pedir dinheiro a nossos pais", disseram à Agência Efe enquanto esperavam em um ponto de ônibus de Leffrinckoucke, nos arredores de Dunquerque.

Também é o caso de Catherine Lavisse, que não tem carteira de motorista nem recursos suficientes para pagar as passagens de transporte e que agora pega um ônibus para ir buscar sua filha na escola.

Segundo explicou à Efe o prefeito de Dunquerque, Patrice Vergriete, "garantir o direito à mobilidade" é um dos três objetivos para instaurar a gratuidade na cidade de tradição mineradora, com uma taxa de desemprego notavelmente superior à média do país.

Os outros são aumentar o poder aquisitivo da população e reduzir o uso do veículo particular, que antes representava dois terços dos deslocamentos.

No entanto, para a Federação Nacional de Associações de Usuários de Transporte (FNAUT) da França, a gratuidade é "desnecessária" e "insuficiente" para mudar os hábitos.

De acordo com os dados dessa organização, apenas 2% dos novos usuários são pessoas que antes utilizavam o carro.

"Antes que uma gratuidade para todos, seria melhor investir o dinheiro dos que têm recursos para melhorar a qualidade e impulsionar o projeto do bonde", opinou o presidente da FNAUT, Bruno Gazeau. Por isso, ele propõe uma tarifa gratuita apenas para as pessoas com rendimentos mais baixos.

Sobre essa crítica, o prefeito de Dunquerque se defende ao afirmar que "a FNAUT se esquece do fator psicológico".

"A gratuidade desperta o interesse, transforma a cidade em acessível e melhora a convivência, já que os cidadãos já não são contribuintes, mas usuários do transporte", acrescentou Vergriete.

Essa posição é confirmada por Jean-Michel Buehon, motorista de ônibus, que, sem deixar de olhar para a estrada, garante que passou a receber mais "bons dias" do que antes. Enquanto se dirigia à praça Jean Bart, agora caminhando, o motorista acrescentou que as entradas e saídas de passageiros da condução agora são mais ágeis.

A gratuidade também foi acompanhada de uma série de melhorias, como o aumento de dez para 17 linhas, cinco das quais com uma frequência de dez minutos entre as 7h e as 19h, a contratação de 42 motoristas, obras viárias e mais faixas de rolagem reservadas aos ônibus.

Outro beneficiado do novo sistema foi o setor de táxis, que viu seu número de clientes aumentar. "Tudo aquilo que faça as pessoas se movimentarem é positivo para o negócio", afirmou o presidente do sindicato de taxistas de Dunquerque, Jean-Luc Mahieux.

A pergunta, no entanto, é obrigatória: quem paga a gratuidade? Na França o transporte público é financiado pelo governo, por um imposto a empresas e órgãos públicos com mais de 11 funcionários e pela venda de passagens, que em Dunquerque representava 4,5 milhões de euros e apenas 10% do custo total.

O ex-prefeito de Dunquerque aumentou em 0,5% o imposto do transporte, que representa entre 6 milhões e 7 milhões de euros anuais adicionais, para construir um pavilhão esportivo. Vergriete, por sua vez, anulou esse projeto e destinou as receitas à sua promessa eleitoral.

O prefeito ressaltou que Dunquerque se transformou em uma referência para outras cidades, entre elas Paris, cuja prefeita, Anne Hidalgo, afirmou em uma visita que estudaria se seu sistema poderia ser levado para a capital.

No mundo todo existem 99 redes de transporte público gratuitas, segundo a Universidade Livre de Bruxelas.

O recorde mundial é da cidade chinesa de Changning, cujos 800 mil habitantes utilizam ônibus gratuitos há dez anos.

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