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Mercado financeiro segue em convulsão após terremoto eleitoral na Argentina

13/08/2019 18h21

Natalia Kidd.

Buenos Aires, 13 ago (EFE).- O dólar e o risco-país voltaram a subir nesta terça-feira na Argentina, ampliando o clima de desconfiança no mercado financeiro após a dura derrota do atual presidente do país, Mauricio Macri, nas eleições primárias realizadas no domingo.

O peso argentino, que ontem se desvalorizou 19% em relação ao dólar, caiu mais 5,45% hoje. No Banco de la Nación, a cotação da moeda americana chegou a 58 pesos para a venda, mas bancos privados e casas de câmbio negociavam o dólar a 61 pesos em Buenos Aires.

Em uma tentativa de segurar a disparada do dólar, o Banco Central da Argentina reajustou mais uma vez a taxa de juros do país, que agora ultrapassa os 74% ao ano, e interveio no mercado cambial.

O risco-país passou dos 1.700 pontos, nível mais alto nos últimos dez anos e recorde no governo de Macri, que responsabiliza o peronista Alberto Fernández, vencedor das eleições primárias por mais de 15 pontos percentuais, pelo caos no mercado financeiro.

Na Bolsa de Comércio de Buenos Aires, porém, as notícias foram melhores. O índice S&P Merval, que ontem despencou 37,93%, se recuperou hoje e fechou em alta de 10,22%. Por outro lado, os títulos públicos argentinos caíram em média 5%.

A hecatombe financeira deve se espalhar rapidamente pela economia argentina, em recessão desde abril do ano passado. O valorização do dólar influencia os preços dos bens de consumo, deve ter efeitos sobre a inflação e sobre a atividade industrial.

Ontem, Macri prometeu adotar medidas econômicas para ajudar a classe média, mas, ao falar sobre a reação do mercado financeiro, preferiu responsabilizar a oposição.

O presidente da Argentina diz que Fernández e sua companheira de chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner, que governou o país entre 2007 e 2015, não têm capacidade para conquistar a confiança dos investidores.

Para Gabriel Torres, diretor da agência de classificação de risco Moody's na Argentina, a vitória de Fernández gera dúvidas sobre o rumo da política econômica após as eleições e sobre o possível impacto das medidas sobre o perfil de crédito do país.

O analista viu os resultados obtidos pelo peronista como uma exigência da população por uma nova orientação econômica.

Sob Macri, especialmente desde a crise que atinge o país desde abril de 2018, o país voltou a conviver conviver com inflação galopante, além de altas nos índices de pobreza e de desemprego. O presidente culpa a herança deixada por Cristina.

Diante do cenário de crescente incerteza e volatilidade no mercado financeiro, a Moody's decidiu rebaixar de "estável" para "negativa" a perspectiva de nota de crédito da dívida da Argentina, apesar de mantê-la em B2.

Fernández nega as acusações do adversário sobre a reação do mercado financeiro.

"Ele, em vez de dizer ao mercado que a economia não está em risco porque os que serão eleitos são gente sensata, diz que somos um bando de loucos. O único responsável pelo que ocorre na Argentina se chama Mauricio Macri", afirmou o peronista.

O candidato da Frente de Todos começou a dar alguns sinais positivos aos investidores. Em breve entrevista, disse que não planeja ter uma economia fechada e lembrou que criticou as restrições cambiais e comerciais impostas por Cristina enquanto estava no poder.

Além disso, Fernández disse que gostaria de contar com Roberto Lavagna, ex-ministro de Economia do país após a crise de 2001 e terceiro colocado nas primárias de domingo, para discutir um plano para recuperar a Argentina.

"Que presidente não gostaria de ter Lavagna como ministro da Economia? É um dos nossos homens mais virtuosos. Não sei o que Lavagna quer fazer, mas foi o único dos candidatos que pegou o telefone para me parabenizar", disse Fernández.

Matías Kulfas, economista próximo ao candidato, também deu sinais positivos ao mercado. Segundo ele, a Frente de Todos tem o desejo de "respeitar os compromissos da dívida externa", uma declaração que visa afastar os temores de um novo calote do país. EFE

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