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Produtores argentinos iniciam greve contra suspensão das exportações de carne

20/05/2021 22h41

Buenos Aires, 20 mai (EFE).- Produtores rurais da Argentina iniciaram nesta quinta-feira uma greve de nove dias durante a qual nenhuma cabeça de gado bovino será vendida como protesto contra a decisão do governo do país de suspender por um mês as exportações de carne para conter o aumento dos preços no mercado interno.

"Estamos avaliando se a greve será completa, com apoio de outros setores, ou de pecuaristas", disse à Agência Efe Mariano D'Amore, vice-presidente da Associação de Pecuaristas de Bahia Blanca e tesoureiro da Bolsa de Cereais da mesma cidade.

"Existe o medo de que a medida seja transferida para outros produtos, o que seria o primeiro passo de uma onda de medidas", ressaltou.

A decisão do governo suspende a aprovação de solicitações da Declaração Jurada de Operações de Exportação de Carne, o registro para exportação que o governo do presidente argentino, Alberto Fernández, lançou para controlar o cumprimento dos acordos de preços no mercado interno.

Para as entidades agropecuárias, é consenso que este instrumento foi criado para dificultar as vendas ao exterior e lembra conflitos do setor com o governo de Néstor Kirchner (2003-2007), quando as exportações de carne também foram interrompidas, e com o de Cristina Kirchner (2007-2015), atual vice-presidente, que criou os Registros de Operações de Exportação (ROE).

"Se eles repetem o instrumento, é porque querem repetir o controle das exportações e o controle dos negócios, porque regulam o mercado aprovando ou não a ROE", explicou Miguel Schiariti, presidente da Câmara de Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da Argentina (Ciccra), à Agência Efe.

A decisão do governo deixou uma porta aberta para a possibilidade de que o prazo de um mês possa ser encurtado. Mas a rápida reação do setor agropecuário se deve ao fato de que as medidas que começaram em 2006, com Néstor Kirchner no poder, duraram 10 anos.

MEDO DE PERDER MERCADOS.

As entidades estão incomodadas porque consideram a medida isolada e inconsistente, alegando que impede o crescimento do setor, e rechaçam a ideia de que as exportações sejam a causa da inflação (46,4% ao ano em alimentos e 64,7% no preço médio da carne), culpando por isso a política macroeconômica.

Por sua vez, os exportadores estão desesperados porque são incapazes de cumprir contratos de vendas ao exterior e temem perder seus principais mercados, que incluem Israel, Alemanha, EUA e Rússia, para concorrentes.

A proibição isenta três cotas de carne de alta qualidade, mas não os contratos com a China, destino de 75% das exportações, que têm um pagamento antecipado de 30%.

"O problema é a perda da confiança do comprador", disse Schiariti.

As receitas com a exportação de carne bovina totalizaram US$ 2,719,4 bilhões em 2020, de acordo com a Ciccra.

Os produtores mostram descrença em relação a um governo com o qual haviam pactuado há apenas 10 dias uma oferta de 8 mil toneladas de carne para levar ao balcão 11 cortes a preços acessíveis.

Além disso, advertem que, devido às medidas que começaram em 2006, 10 milhões de cabeças de gado foram perdidas, e os preços acabaram subindo acima da inflação. Também foram fechados 140 abatedouros, e 19 mil empregos diretos foram perdidos. A Argentina acabou despencando do segundo para o 12º lugar entre os exportadores mundiais de carne.

MACRI CRITICA.

O ex-presidente argentino Mauricio Macri (2015-2019) considera a suspensão das exportações "muito ignorante" e acredita que haverá escassez de carne, com novo aumento dos preços no mercado interno e perda de empregos e exportações.

"Eles já o fizeram e o farão novamente, isso é o mais grave", afirmou o político e empresário em uma entrevista ao jornal "La Voz".

Por outro lado, Alberto Fernández, reiterou hoje, em entrevista à "Rádio 10", que procura conter o aumento dos preços da carne para os cidadãos do país.