Corretoras apostam em ações descoladas do cenário político

Jéssica Alves

A maioria dos economistas de corretoras já está conformada que a aprovação da reforma da Previdência pode custar a sair. Sem a medida, tida como uma forma de garantir a estabilidade fiscal no curto prazo, as casas estão adotando uma direção cada vez mais defensiva nas carteiras do investidor. A aposta, agora, concentra-se em ações mais descoladas do cenário político ou que podem se beneficiar da desvalorização do real.

Para minimizar os riscos na carteira em meio às incertezas, especialistas aconselham escolhas de longo prazo. "Hoje as ações estão baratas. Uma janela confusa como esse período é algo raro de acontecer", afirma Guilherme Macêdo, sócio da Vokin Investimentos.

Os setores vistos com bons olhos são ligados a consumo, na opinião de Macêdo, porque, em um momento de recuperação, são os primeiros a dar bons retornos. O Magazine Luiza é uma das que já se encontram entre as cinco ações mais valorizadas no ano. Ele também indica empresas de saúde, que têm um mercado crescente com o envelhecimento da população, e empresas de alimentos, que são bastante resilientes.

Um setor para se ter mais cautela dentro desse cenário de instabilidade política, segundo ele, são os bancos - sobretudo com a medida provisória que abre espaço para que bancos e corretoras façam acordos de leniência com o Banco Central, mesmo que já estejam envolvidos em alguma investigação. Para quem é mais conservador, Macêdo aconselha os títulos públicos atrelados ao IPCA, já que o ganho real está maior com a baixa da inflação e os juros ainda num patamar alto. Alexandre Espírito Santo, da Órama, acredita ainda que a Selic - taxa básica de juros - vai cair em ritmo menor, garantindo um bom retorno para os título de renda fixa.

De olho em Brasília. A cautela das corretoras é reflexo do andamento das reformas. A da Previdência era a mais aguardada mas, segundo o mercado, ficou distante após a delação da JBS, que encurtou o raio de apoio ao presidente Michel Temer. E mesmo que a reforma trabalhista seja votada no Senado em caráter de urgência, o que poderia ser um termômetro para a Previdência, Ignacio Crespo, economista da Guide, diz que dificilmente vai diminuir o clima de incerteza em Brasília e abrir espaço para uma nova reforma. "Se no período pré-choque JBS (a reforma da Previdência) já era difícil e nada trivial, agora é ainda mais improvável."

O economista diz que a corretora projetou um cenário em que o Índice Ibovespa fica entre 60 e 65 mil pontos, além do dólar entre R$ 3,25 e R$ 3,45. "Olhando para o cliente pessoa física, nas carteiras semanais colocamos empresas que se beneficiariam de um dólar mais alto." Quando há um imbróglio político e um cenário de mais risco, explica, o real tende a se desvalorizar.

André Perfeito, da Gradual Investimentos, aposta que a Previdência não passa em 2017, mas acredita que ela pode sair em 2018 se a economia ganhar um pouco mais de fôlego. No entanto, ele pondera que será difícil convencer os parlamentares a aprovarem medidas impopulares em ano de eleição.

A corretora Rico mantém a mesma recomendação aos investidores, apesar da turbulência política. "A aprovação da reforma fica cada mais difícil. Mas, pela situação fiscal do País e pela perspectiva de continuidade da equipe econômica, ainda há chances de passar neste governo", avalia o analista-chefe Roberto Indech.

Já o economista da corretora Órama, Alexandre Espírito Santo, não acredita que a reforma seja aprovada - pelo menos não do jeito que a equipe sugeriu. "Se passar, serão alguns aspectos pontuais. Sairá extremamente desidratada", afirma. Na opinião de Phillip Soares, da Ativa Investimentos, do ponto de vista econômico, "há pouca diferença entre a não aprovação ou a aprovação de um texto demasiadamente diluído, com pouco impacto no Orçamento."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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