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Dólar recua com ação do BC e exterior mais calmo

Fabrício de Castro e Gabriel Bueno da Costa, colaborou Ana Paula Ragazzi

Brasília

04/05/2018 07h00

Após duas sessões de forte alta em relação ao real e de ter ultrapassado a casa dos R$ 3,55, o dólar fechou na última quinta-feira, 03, em baixa de 0,79%, cotado a R$ 3,5236. O dólar turismo, que também vinha em alta, cedeu 0,62%, fechando aos R$ 3,6700. O recuo ocorreu um dia após o Banco Central indicar a intenção de atuar no mercado para segurar a pressão da moeda americana, intensificada no último mês.

Na quinta-feira, o BC vendeu US$ 445 milhões em contratos de swap - um tipo de papel ligado ao câmbio. A operação, cujo efeito é equivalente à venda da moeda americana no mercado futuro, ajudou a segurar as cotações - que tiveram também forte influência do mercado externo, que operou sem as turbulências dos dias anteriores. "Com a pequena intervenção, o BC sinaliza que atua apenas para conter a volatilidade, sem interferir na tendência do câmbio", afirmou o economista Gustavo Cruz, da XP Investimentos.

Apenas em abril, o dólar à vista avançou 6%, saltando da casa dos R$ 3,30 para acima dos R$ 3,50 - cenário vivido também em outros países.

O movimento é explicado pelo fato de os juros nos EUA, na faixa entre 1,50% e 1,75% ao ano, estarem mais elevados hoje em relação ao que era visto no passado recente. Além disso, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) tem sinalizado a intenção de promover mais duas ou três elevações dos juros ainda em 2018.

Ao mesmo tempo, a Selic (a taxa básica de juros) no Brasil está no menor patamar da história: 6,50% ao ano. Para piorar, o risco de uma guerra comercial entre EUA e China tem elevado a busca por ativos mais seguros ao redor do mundo, como o dólar. O "diferencial de juros" menor entre Brasil e EUA impulsionou a moeda americana ante o real, embora alguns profissionais avaliem que o cenário de indefinições políticas também ajuda a explicar o movimento mais recente do câmbio.

"O que aconteceu até aqui foi muito relacionado ao ambiente externo e alguma coisa ao interno - que diz respeito a todo esse desconforto que começa a crescer com a incerteza eleitoral", afirmou o economista Silvio Campos Neto, da Tendências Consultoria Integrada.

A má notícia é que, à medida que a campanha eleitoral avançar, a tendência é de intensificação da pressão de alta para o dólar no Brasil, justamente porque o cenário político é nebuloso. "A história da campanha em si e da atenção que os mercados vão dar a isso deve se concentrar no terceiro trimestre. Não é no segundo trimestre que esse jogo vai ser jogado", alerta o economista Mauro Schneider, da MCM Consultores.

A mais recente edição da pesquisa Focus, realizada com mais de uma centena de instituições financeiras e divulgada na segunda-feira, 30, mostrou que os analistas de mercado elevaram ligeiramente suas projeções para o câmbio no fim deste ano. A cotação subiu de R$ 3,33 para R$ 3,35.

Mesmo que a pressão de alta do dólar ante o real se intensifique durante a corrida eleitoral de 2018, os economistas do mercado foram unânimes em afirmar que, desta vez, o BC está mais preparado para enfrentar a volatilidade. Isso porque, durante a campanha eleitoral de 2014, o BC carregava um estoque de swaps que chegou a ser superior a US$ 100 bilhões, ou quase um terço das reservas internacionais. Agora, o estoque do BC está em US$ 23,8 bilhões, o que deixa uma margem confortável para a instituição atuar. As reservas internacionais brasileiras estão hoje em US$ 381,5 bilhões.

Argentina eleva juros pela 2ª vez em seis dias

Para tentar conter a disparada do dólar, o Banco Central da Argentina elevou na última quinta-feira, 03, a taxa básica de juros de 30,25% para 33,25%, apenas seis dias depois de os juros subirem três pontos porcentuais. Em comunicado, o banco disse que "tomou essa decisão com o objetivo de garantir o processo de desinflação" e que "está pronto para atuar novamente, se for necessário".

Com as finanças internas desequilibradas e a inflação em alta, a Argentina é o país que tem sofrido mais com o fortalecimento do dólar. Uma parte importante das reservas cambiais já foi gasta na tentativa de conter a desvalorização do peso, mas o efeito dessa estratégia tem sido reduzido. As estimativas são de que, hoje, as reservas do país estejam em cerca de US$ 30 bilhões, valor considerado baixo para conter o avanço da moeda americana.

Na opinião da consultoria Pantheon Macroeconomics, a alta dos juros anunciada na quinta-feira deve ser bem-vista pelos investidores, como um sinal de que o BC está disposto a enfrentar a inflação no curto prazo. "Os investidores, porém, querem que o governo mostre um compromisso mais forte em controlar o déficit fiscal, apesar de medidas recentes positivas", diz a consultoria. A Pantheon alerta ainda para o risco de que o aperto monetário prejudique a "nascente recuperação econômica", o que traria um custo político "extremamente alto" para o governo de Mauricio Macri. Na mesma linha, a consultoria Capital Economics acredita que a crise deve continuar, a menos que o governo adote passos mais agressivos para enfrentar as vulnerabilidades financeiras. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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