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Pressão sobre o dólar cresce com busca por proteção

Fabrício de Castro e Fernando Nakagawa

Brasília

A corrida por "hedge" (proteção) por parte de empresas e investidores com compromissos em moeda estrangeira foi o fenômeno que, no Brasil, impulsionou as cotações do dólar à vista nas últimas semanas.

O gatilho para o movimento foi a perspectiva de mais elevações dos juros nos Estados Unidos, além das preocupações em torno do comércio internacional, em meio às disputas entre o governo de Donald Trump e a China.

Com a expectativa de juros mais elevados nos EUA, aumentou a tendência de saída de dólares de países emergentes. Um dos exemplos mais claros disso é a Argentina, onde a fuga de divisas acabou por forçar um acordo de auxílio com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

"Só que o mercado brasileiro é mais sofisticado que o de outros emergentes", pontua o economista Sidney Nehme, da NGO Associados Corretora de Câmbio. "Temos outros instrumentos. Em um primeiro momento, em vez de saírem correndo do país, os investidores buscam proteção."

Mercado brasileiro evita debandada

O fato de o mercado de derivativos cambiais no Brasil ser muito mais líquido que o de moeda física acabou evitando uma debandada de dólares neste primeiro momento. Atualmente, enquanto os negócios com o dólar à vista somam em torno de US$ 1 bilhão por dia, o mercado de dólar futuro --o mais líquido-- chega atingir 15 vezes este valor.

Com a busca por proteção, a cotação no mercado futuro de dólar subiu, o que acabou contaminando o dólar à vista.
Sidney Nehme, da NGO Associados Corretora de Câmbio

Somente em abril, o dólar à vista avançou 6% ante o real, para acima dos R$ 3,50. O dólar turismo --que sempre opera em patamares mais elevados-- atingiu os R$ 3,65.

A busca por "hedge" ficou nítida entre os investidores estrangeiros. No fim de março, eles carregavam uma posição comprada em contratos de dólar futuro de US$ 1,944 bilhão. No fim de abril, essa posição já era 595% maior, de US$ 13,493 bilhões. Na prática, uma posição comprada significa que os investidores travaram um valor para o dólar.

Se a moeda americana se valorizar --o que vem ocorrendo nas últimas semanas-- quem está comprado em dólar terá ganhos com o movimento ou pelo menos evitará perdas. É a "proteção" contra as oscilações da moeda.

Assim, se estes investidores decidirem de fato deixar o Brasil mais à frente, essa proteção evitará perdas no momento da conversão dos investimentos. Operações de "hedge" cambial como esta também costumam ser feitas por meio de contratos de cupom cambial (DDI), que refletem a taxa de juros em dólares no Brasil.

Dólar travado

No caso das empresas, houve procura por "hedge" em dólar futuro, mas o movimento ficou mais nítido no caso dos contratos a termo de moeda. Por estes contratos, uma empresa trava o valor do dólar numa cotação específica. Assim, se a moeda disparar, a empresa comprará dólares na cotação contratada, no momento de efetuar o pagamento do compromisso.

Empresas muitas vezes dão preferência a estes contratos porque, ao contrário do dólar futuro, eles não exigem margem para ajustes financeiros diários.

Os dados da B3 (a Bolsa de valores de São Paulo) mostram que a compra de dólares a termo pelas empresas aumentou 9,7% de março para abril. São empresas que em alguns meses terão de pagar algum compromisso no exterior e que, em função do avanço do dólar, decidiram travar agora as cotações.

"Muitas empresas que não fizeram o 'hedge' lá atrás estão buscando a proteção agora", afirma o diretor da consultoria Wagner Investimentos, José Faria Júnior.

O medo é de que, com a pressão vinda de fora e as indefinições em torno da eleição presidencial no Brasil, a alta do dólar continue nos próximos meses. O efeito dessa busca por "hedge" é o de manter o suporte às cotações da moeda americana à vista. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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