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Rotina está de volta onde greve começou

Douglas Gavras

São Paulo

03/06/2018 09h15

Um grupo de 20 militares observava o ir e vir de caminhões e carros na manhã da última sexta-feira. Outros agentes da Polícia do Exército ainda estavam espalhados em diferentes pontos da rodovia, mais à frente, para evitar novos protestos. Três dias antes, 300 soldados foram chamados para desmobilizar os 200 caminhoneiros que ficaram parados no posto Rodoanel Sul, por dez dias, contra o preço do diesel.

Aos poucos, a rotina começa a voltar ao posto que foi um dos símbolos da greve dos caminhoneiros, no km 280 da Rodovia Régis Bittencourt, no município de Embu das Artes (SP).

Do protesto, ficaram palavras de ordem pintadas em um viaduto próximo e no acostamento, como "todo poder ao povo" e "queremos nova Constituição".

"A retirada foi bem tranquila", conta o tenente-coronel José Paulo da Silva Neto, do 2.º Batalhão da Polícia do Exército. De vez em quando, um morador da região ainda vai até os soldados, pedir por uma intervenção militar. "Mas não há perspectiva de que isso vá acontecer. Tem muito boato por aí", assegura o tenente-coronel.

Na quinta-feira, o combustível chegou, mas só a metade do que costuma vir, conta Leandro Duarte, de 46 anos, gerente do posto. "As distribuidoras estão fazendo racionamento, dividindo a quantidade que mandam para cada posto. A demanda triplicou, mas entregam menos." A partir de amanhã, o desconto de R$ 0,46 no diesel, uma das promessas feitas aos caminhoneiros pelo governo Temer, já deve estar nas bombas, afirma.

Sinal vermelho

Há nove anos no estabelecimento, Duarte acordou preocupado quando soube que o movimento grevista havia se intensificado e estava concentrado no posto onde trabalha. "Foram dias muito emocionantes, tudo estava parado. Vim de moto e encontrei o pessoal aqui. Alguns dos manifestantes já eram nossos clientes, mas era um mar de gente desconhecida. Assustava."

O lugar é estratégico: colado ao Rodoanel, o posto fica a poucas quadras do sindicato dos caminhoneiros - era lá que eles iam para tomar banho durante os dias de paralisação.

Gerente do restaurante ao lado do posto, Fernando Córdova, 28, diz que era no estabelecimento que eles viam televisão, para acompanhar a cobertura dos protestos. Com o passar dos dias, muitos ficaram sem ter como pagar o almoço e receberam doações. "Também contribuí", diz Fernando.

O barbeiro Thiago Duarte, 20 anos, também ajudou. Ele cortou cabelo e fez a barba de graça de dezenas de manifestantes. "Ficamos amigos. E ainda deu para compensar os custos com os que podiam pagar. De um dia para o outro, o meu movimento dobrou."

"Nunca vendemos tanto", diz a atendente da loja de conveniência, Amanda Venute, de 21 anos. O faturamento subiu de R$ 600 por dia para R$ 4 mil com os novos vizinhos. De repente, eles montaram uma churrasqueira na frente da loja e trouxeram um violão.

O estoque de cerveja logo acabou e o chefe dela foi buscar mais, de moto. "Acho que jamais vou me esquecer desses últimos dias." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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