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Empregos e carreiras


Em um país com desemprego de 13%, sobram vagas na área de tecnologia

Fernando Scheller e Mônica Scaramuzzo

São Paulo

05/05/2019 13h18

Para encontrar um profissional para seu time de desenvolvedores, a fintech Warren, de Porto Alegre, foi longe: após meses de procura, contratou um funcionário que trabalha de casa, em Sinop, polo do agronegócio de Mato Grosso, a 3.000 km de distância.

O caso ilustra como o setor de tecnologia se descolou da realidade do mercado de trabalho brasileiro. Em um país de 13,4 milhões de desempregados, ou 12,7% da força de trabalho, o segmento tem no momento 5.000 vagas abertas apenas em startups (empresas nascentes). Considerando todo o ecossistema de tecnologia, as companhias poderiam abrir até 70 mil novas vagas em 2019, meta que deve ficar longe de ser cumprida por falta de mão de obra capacitada.

A abertura de empregos no setor é turbinada por várias frentes. Uma delas é a criação de novas empresas de tecnologia. Segundo a Associação Brasileira de Startups (Abstartups), apenas entre janeiro e abril deste ano, nada menos que 2.000 empresas foram fundadas nesse setor.

Até dezembro, mais 3.000 podem começar a operar. Do lado dos negócios mais maduros, aponta a Brasscom, que reúne companhias de tecnologia da informação, a demanda de transformação digital em diversos negócios pode garantir que a receita do setor dobre até 2024, somando R$ 200 bilhões.

Para chegar a essa cifra, as companhias vão precisar de 420 mil trabalhadores até 2024, segundo o presidente executivo da associação, Sérgio Paulo Gallindo.

Falta capacitação

Mas, se há tanta gente procurando emprego, como se explica a dificuldade de unir trabalhadores ávidos por oportunidades às vagas disponíveis? Embora a demanda por profissionais de tecnologia deva ficar em torno de 70 mil pessoas ao ano entre 2019 e 2024, Gallindo explica que as universidades só formam 45 mil profissionais em áreas ligadas a TI por ano.

"Desse total, a metade está em cursos como análise e desenvolvimento de sistemas, que estão defasados em relação ao que o mercado exige hoje", diz. Ou seja: só um quarto da necessidade de profissionais da área é suprida pelo canal tradicional, que são as universidades.

Como a escassez não será resolvida facilmente, empresas e entidades de classe tentam remendar o problema, relaxando critérios para a contratação, pelo menos no que diz respeito à formação universitária.

"As empresas estão contratando pessoas que não são formadas em TI e dando um 'banho de loja' (treinamento intensivo)", diz Amure Pinho, presidente da Abstartups. A gaúcha Warren, que foi até Sinop para encontrar um programador, já se adaptou aos novos tempos: "A pessoa formada em Ciência da Computação é ideal, mas temos programadores formados em Direito", afirma André Gusmão, cofundador da empresa.

Contratações no setor de tecnologia ficam mais flexíveis

Diante da dificuldade em encontrar mão de obra, o mercado de tecnologia está mais flexível. No ano passado, mesmo em um cenário ainda difícil para a economia, as empresas de tecnologia associadas à Brasscom, principal entidade do setor, contrataram 28 mil funcionários, número que só não dobrará em 2019 por causa da falta de pessoal qualificado.

Nas 5.000 novas startups (empresas nascentes) de tecnologia que devem surgir no mercado brasileiro em 2019, o total de vagas pode chegar a 50 mil.

"A disputa por cérebros para o mercado de tecnologia está mais acirrada, dada a escassez de mão de obra não só em startups como também para área de tecnologia de grandes empresas tradicionais", diz Ricardo Basaglia, diretor executivo da empresa de recrutamento Michael Page, que criou uma divisão dedicada à área de tecnologia por conta da demanda por profissionais da área.

Para atrair mão de obra, as empresas passaram a olhar de forma mais generosa para diplomas de cursos técnicos. Cargos como desenvolvedores de softwares, antes reservados para graduados em Ciência e Engenharia da Computação, agora estão abertos para profissionais com formação técnica, apesar de estarem entre os mais estratégicos na área de tecnologia, diz Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

Segundo a empresa de recrutamento Revelo, hoje a posição de desenvolvedor paga salário médio inicial de pouco menos de R$ 6.500, bem mais do que cargos nos quais há mais oferta de profissionais, como especialista em mídias sociais, cuja média salarial está em R$ 3.700.

Empresas buscam criatividade e competência técnica

Na hora de buscar profissionais, as empresas adotam ferramentas para testar a competência técnica e a capacidade de solucionar problemas dos candidatos --independentemente de formação acadêmica.

A fintech Warren, por exemplo, usou um "enigma" em um processo de seleção. "Só quem conseguisse decifrar a mensagem codificada tinha acesso ao email para enviar o currículo. Queríamos testar o prazer das pessoas em resolver desafios", diz André Gusmão, cofundador da empresa.

Com base em Campinas (SP), a CI&T presta serviços de tecnologia para clientes como Itaú e Google. Com atuação nos mercados do Brasil, dos EUA e da China, a empresa criou uma campanha de contratação na forma de desafio digital, que atraiu 5.300 candidatos.

Batizada You Global, ela permitiu que a empresa conseguisse encontrar cem novos funcionários, diz Marcelo Trevisani, diretor de marketing da CI&T. Hoje, a companhia tem 2.500 empregados, com previsão de contratar mais 500 até dezembro.

Diante da necessidade de escalar negócios, o setor vêm priorizando a velocidade. A Revelo trabalha com uma ferramenta na qual os profissionais são filtrados por uma sistema automatizado, que hoje já reúne 500 mil cadastros. Assim, uma pessoa só é apresentada a uma companhia quando as chances de contratação são altas.

Segundo Mateus Pinho, diretor da Revelo, a seleção para uma vaga, que costuma levar um mês, pode ser resolvida em uma semana. "As empresas hoje têm pressa", diz ele, que calcula que a ferramenta receba 30 mil currículos ao mês.

As informações são do jornal "O Estado de S. Paulo".

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