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Banco Central descarta quebra de bancos no Brasil na esteira da pandemia

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues

Do Estadão Conteúdo, em Brasília

23/03/2020 14h48

O Banco Central descarta, neste momento, a possibilidade de quebra de bancos no Brasil como consequência da pandemia de coronavírus. Durante entrevista coletiva na manhã de hoje, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, defendeu que a crise atual é diferente da ocorrida em 2008 e 2009, quando dezenas de instituições financeiras quebraram ou foram absorvidas por outras em todo o mundo.

"Em 2008, a incerteza era se o banco ia quebrar ou não. Agora, não falamos disso", afirmou Campos Neto na entrevista, realizada virtualmente.

O presidente do BC pontuou que, hoje, as instituições financeiras no Brasil têm "bastante folga" no chamado Índice de Basileia, que mede a relação entre o patrimônio de um banco e seus ativos ponderados pelo risco.

Pelas regras atuais seguidas pelo BC, cada instituição precisa ter Índice de Basileia mínimo de 8%. Os dados da autarquia mostram que, na média, o índice para o sistema financeiro estava em 17,12% em março deste ano. Em março de 2009 - pouco após o estouro da crise financeira global - o índice médio era de 18,13%. Na época, porém, a exigibilidade era maior, de 11%.

"Temos um sistema bem provisionado, com boa liquidez e capital sobrando", disse Campos Neto. "Nenhuma instituição financeira hoje tem Índice de Basileia abaixo ou perto do recomendado (8%). Ainda não precisamos socorrer nenhuma instituição", acrescentou.

Ainda assim, o BC lançou hoje uma série de medidas para garantir o acesso a recursos por parte das instituições financeiras - em especial, as de menor porte. Uma das iniciativas é a possibilidade de captação de recursos, por parte dos bancos, de Depósito a Prazo com Garantia Especial do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

O FGC é um fundo formado a partir de contribuições obrigatórias das instituições financeiras. Seus recursos servem para cobrir eventuais perdas de clientes de bancos, em caso de quebra, mas também para socorrer instituições financeiras.

A medida do BC permite que os bancos captem recursos com a garantia do FGC. O limite da captação é de R$ 20 milhões por operação. O valor total a ser captado corresponde ao patrimônio líquido da instituição, limitado a R$ 2,0 bilhões por conglomercado. "É um instrumento preventivo para ajudar os pequenos e médios bancos", afirmou Campos Neto. "Valor mínimo é de R$ 1 milhão e o máximo, de R$ 20 milhões. O FGC avalia aumento do valor máximo."

Durante toda a coletiva, Campos Neto repetiu que uma das preocupações do BC é manter a liquidez do sistema - ou seja, a disponibilidade de recursos para que os bancos continuem realizando operações com seus clientes normalmente.

"Queremos oferecer condições para que os bancos rolem as dívidas dos clientes. Estamos monitorando todos os elos da cadeia de crédito", afirmou Campos Neto. "Percebemos que, na precificação da dívida aos clientes, os bancos passaram a ficar mais preocupados com a liquidez de capital."

Além de elevar o volume de recursos disponível para os bancos emprestarem aos clientes, o BC também afirmou que estuda forma de direcionamento de crédito para setores específicos. Essa seria uma forma de superar eventual "empoçamento" de recursos nos bancos. "Não há sinal de empoçamento no sistema bancário neste momento", disse o diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra, que também participou da entrevista. "Vai haver liquidez para todo o sistema", afirmou.