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'País só cresce se ampliar produtividade'

Vinicius Neder

15/12/2020 07h03

Com o fim do bônus demográfico no Brasil, a única forma de gerar crescimento econômico sustentado será com ganhos de produtividade. Esta foi a avaliação de economistas que participaram ontem de seminário online promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), em parceria com o Estadão. Apesar do quadro de incerteza em meio à pandemia, para estimular o avanço da produtividade será preciso apostar em reformas econômicas, como a tributária, e melhorar a qualidade da infraestrutura e da educação.

A baixa produtividade da economia brasileira é um problema estrutural, disseram Silvia Matos e Fernando Veloso, ambos pesquisadores do Ibre/FGV. Dados compilados pelos economistas, e disponíveis nos registros do Ibre/FGV, mostram que de 1981 a 2019 o ganho médio da produtividade no Brasil foi de apenas 0,4% ao ano.

Produtividade é a evolução da atividade econômica - o "valor adicionado" - em relação à quantidade de trabalhadores empregados. O indicador cresce quando se faz "mais" (o valor gerado pela atividade cresce) "com menos" (uso de trabalhadores e capacidade instalada), explicou Silvia Matos.

Nos dois últimos trimestres, a produtividade saltou, como mostrou o Estadão no domingo. Em tempos normais, o crescimento seria positivo, mas, com a pandemia, pode ser artificial, alertaram os economistas.

Por causa da covid-19, famílias em casa gastaram mais com entregas a domicílio e com o comércio eletrônico, mantendo a demanda por bens e alimentos, mas os gastos com lazer e serviços como bares, restaurantes, hotéis, cabeleireiros e academias de ginástica foram ao chão.

Como resultado, tombaram tanto o valor gerado pela atividade econômica quanto a quantidade de trabalho empregado - seja em número de trabalhadores seja em horas trabalhadas. Só que a quantidade de trabalho empregado caiu muito mais do que o valor gerado, elevando a produtividade, disse Veloso no seminário de ontem.

O receio dos pesquisadores do Ibre/FGV é que, na medida em que a economia retome seu ritmo anterior, o Brasil volte a registrar baixa da produtividade. A consequência será um crescimento econômico muito lento, justamente porque o "bônus demográfico" ficou no passado.

Esse bônus ocorre quando a chamada população em idade ativa cresce num ritmo superior ao do crescimento populacional, explicou Silvia. Assim, a economia pode crescer apenas pela incorporação de novos trabalhadores no mercado. Só que, desde 2018, os dados do IBGE apontam para o fim do bônus, já que essa população em idade ativa passou a crescer num ritmo inferior ao do crescimento populacional.

"O bônus se converteu em ônus demográfico. A única forma de gerar crescimento será com ganhos de produtividade", afirmou a pesquisadora.

'Destruição criativa'

Para a produtividade crescer num ritmo superior ao visto desde a década de 1980, a saída é avançar na agenda de reformas, disseram os economistas participantes do seminário de ontem. O pesquisador associado do Insper Marcos Mendes citou o sistema tributário, a infraestrutura precária, a má qualidade da educação e a proteção - considerada elevada - da economia nacional em relação à concorrência de importados como entraves para o crescimento da produtividade. Todos poderiam ser atacados por meio das reformas já em discussão no Congresso, disse ele.

"A outra reforma é a abertura econômica. Sem ela, não temos acesso a insumos de qualidade e máquinas de qualidade. Nem temos o processo de destruição criativa, resultado da competição com empresas de fora", afirmou Mendes.

O problema, segundo os economistas, é que essa agenda parece estar congelada hoje, tanto pela falta de iniciativa do governo quanto pelas disputas políticas envolvendo a sucessão do comando da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.