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Campos Neto: moeda digital precisa ser moeda que é extensão da física

Fabrício de Castro e Marcelo Mota

Brasília e São Paulo

25/06/2021 18h37

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta sexta-feira, 25, que a moeda digital, atualmente em estudo pelo BC, precisa ser uma extensão da divisa física. Segundo ele, mesmo com o lançamento da moeda digital, o mundo do crédito e da intermediação financeira precisará continuar o mesmo.

A moeda digital é mais um dos projetos do BC na área de tecnologia, com foco no mercado financeiro do futuro. Atualmente, existem no mundo moedas com lastro em algum ativo, as chamadas stablecoins, e as moedas sem lastro, que são as criptomoedas, como o bitcoin. A moeda digital em estudo pelo BC é uma divisa com lastro na própria moeda, ou seja, no real.

De acordo com Campos Neto, os bancos centrais que hoje discutem o lançamento de moedas digitais possuem mais perguntas do que respostas. Ele deu alguns exemplos. "Se a moeda digital for uma extensão da moeda física, o emissor da moeda, que é o Banco Central, faria conversão no mesmo preço", explicou. Segundo ele, isso levaria a moeda digital a ter mais valor que a moeda física, o que geraria dificuldades para os bancos.

"A moeda digital no balanço de um banco funciona como um depósito de 100% de compulsório. Não dá capacidade multiplicadora de negócios para os bancos", disse Campos Neto. "Se todo mundo resolvesse converter toda a moeda física em moeda digital, você teria um problema de intermediação financeira", acrescentou.

Uma forma de resolver a questão, conforme o presidente do BC, é adotar uma taxa de juros negativa para a moeda digital. "Mas isso não é fácil de acontecer. Como ter uma taxa de juros negativa todo dia?"

Outra possibilidade é que a conversão entre moeda física e moeda digital não seja total, mas apenas parcial. "Mas aí você vai ter um preço maior para a moeda digital", afirmou Campos Neto. "Então, são questões que não têm respostas ainda. Ainda não temos uma resposta definitiva."

Outra questão discutida pelos bancos central diz respeito ao funcionamento da moda digital em situação on-line e off-line. "Só que ela tem que ser rastreável também. E a tecnologia para rastrear (depois que a moeda esteve off-line) não é trivial."

Campos Neto pontuou ainda que, caso cada banco central adote um sistema de tecnologia para a moeda digital, as divisas podem perder uma de suas principais vantagens, que é o pagamento entre fronteiras. "Há vários temas abertos em relação à moeda digital", disse.

Ele afirmou ainda que o BC ainda não tem um prazo estabelecido para o lançamento da moeda digital. "Achamos que dá para evoluir bastante na moeda digital de agora até o fim de 2022", disse. "A vida do BC está mudando de maneira exponencial. Precisamos estar preparados para regulamentar o mercado do futuro."

Campos Neto participou hoje da 31ª edição do CIAB Febraban, promovida pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban).