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Mercado vê riscos com uma eventual alta de juros nos EUA

Filipe Serrano

15/07/2021 13h00

Depois de um segundo trimestre marcado pelo avanço da vacinação e uma recuperação gradual da economia, o mercado financeiro começa a dar mais atenção aos riscos que podem atrapalhar o desempenho da atividade econômica no restante do ano e no ano que vem.

Na avaliação de Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV (antigo Banco Votorantim), os três principais obstáculos para a retomada são uma eventual mudança de direção na política monetária nos EUA - com um aperto na taxa básica de juros e a redução dos estímulos -, bem como a crise hídrica e as eleições presidenciais de 2022 no Brasil.

A preocupação é com um impacto negativo que esses movimentos podem ter nos preços das ações, de títulos no mercado financeiro e também no câmbio, e seus possíveis desdobramentos para a economia do País em 2022.

Segundo Padovani, o maior risco é uma possível mudança de direção na política de juros do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. A meta da taxa de juros básica no país está hoje em um nível entre 0% e 0,25%. Mas o Fed tem sido pressionado a elevar os juros em razão da alta recente da inflação americana.

Em junho, o índice de preços ao consumidor subiu 0,9%, acima da projeção de 0,5% esperada pelo mercado. Em 12 meses, o indicador acumula alta de 5,4%, bem acima da meta do Fed, de 2%. A subida dos preços tem relação com a recuperação econômica global e o rearranjo de setores que estavam com a demanda reprimida por causa da pandemia. "Não faz sentido manter juro real negativo com a economia americana crescendo 7% em 2021, segundo a projeção do Fed", diz o economista.

Na avaliação de Padovani, é possível que a autarquia decida reduzir as políticas de estímulo monetário antes do previsto, o que traz consequências para os mercados financeiros.

Padovani lembra a experiência de 2013, quando o Fed decidiu reduzir seu programa de compra de ativos adotado durante a crise financeira de 2008 como forma de estímulo monetário. Na época, também houve impacto no mercado brasileiro, com queda nos preços das ações e uma alta do dólar e dos juros. "O Fed e seus diretores têm chamado a atenção o tempo todo que estão atentos à experiência de 2013, dizendo que não vão repeti-la. Mas acho que os mercados estão muito esticados. Pode haver uma reprecificação de ativos", diz.

A preocupação já tem dado o tom dos mercados internacionais desde junho e tende a se manter nos próximos meses. "A agenda, coincidentemente com a virada do semestre, está mudando. E quando muda, revela riscos", afirma ele.

Apesar da preocupação com os efeitos sobre as ações e o câmbio, o economista não vê por enquanto uma mudança nas projeções para o crescimento e a inflação no Brasil já em 2021. O cenário para o ano, segundo ele, está dado. Mas os efeitos podem ser sentidos nos últimos meses de 2021 e no início de 2022. "Esses movimentos do mercado financeiro tornam a economia menos previsível. Investidores, consumidores, empresários, banqueiros, todos os agentes ficam mais cautelosos. E é natural que se transmita para a economia", afirma.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.