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Brasil é o país que tem elevado juros com mais força, diz Campos Neto

Eduardo Rodrigues e Célia Froufe

Brasília

01/09/2021 10h46

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, reforçou nesta quarta-feira que a autoridade monetária precisa ser dura e deixar claro que vai perseguir meta de inflação no horizonte relevante. "O Brasil não foi o primeiro país que subiu os juros - o primeiro foi a Turquia -, mas é o que tem subido mais forte. Quando olhamos a taxas de juros para frente, temos o Brasil com um movimento alto também" afirmou Campos Neto, em audiência pública na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

O presidente do Banco Central destacou a queda acentuada de óbitos por covid-19 no Brasil com o avanço da vacinação e lembrou que o País já ultrapassou os Estados Unidos em número de vacinados com a primeira dose.

"O debate daqui para frente vai ser muito mais a rejeição à vacina do que a disponibilidade das vacinas. Essa rejeição não é geograficamente homogênea. Mundialmente falando, já temos 5,3 bilhões de doses aplicadas", afirmou, na audiência pública virtual.

Ele voltou a mostrar dados da terceira onda no Reino Unido onde, apesar de um número de casos parecido com a segunda onda, houve menos óbitos. "Isso significa que a vacina é eficaz, não garante 100%, mas tem uma eficácia bastante alta. Os países com índice de rejeição mais alta estão vendo aumento do número de casos com a variante delta, como em alguns Estados do EUA", completou.

Campos Neto lembrou que o Brasil adotou uma estratégia de diversificação de vacinas, com aceleração do processo ao longo dos últimos meses. "Já avançamos para uma terceira dose de reforço nos idosos e na vacinação dos mais jovens", acrescentou.

Inflação

Roberto Campos Neto voltou a argumentar que o mercado espera um crescimento da inflação de forma geral, não apenas no Brasil. Segundo ele, há dúvidas sobre tese de que inflação é fruto simplesmente de uma ruptura de produção.

"Fica a pergunta se há mudança estrutural na economia no pós-pandemia que vai fazer com que isso dure um pouco mais. O debate mais recente é sobre quão prolongados serão os choques sobre preços", afirmou. "O Brasil realmente teve choque muito grande de inflação, como outros emergentes", admitiu.

Campos Neto voltou a citar a alta dos preços de moradia em economias avançadas, com forte aumento do preço de imóveis, com expectativas de forte subida nos preços de aluguéis - que são um componente importante da inflação nos Estados Unidos. "Existe uma perspectiva de que o preço de commodities se acomode, ou que pelo menos pare de subir nesses níveis. Vemos algumas commodities retornando", completou.

Mais uma vez, o presidente do BC citou a "inflação verde". "Para a recuperação ser sustentável, é preciso pensar em formas de produzir energia mais limpa, que requer a produção de minérios que não são limpos na sua produção. Há esse dilema", concluiu.

Campos Neto repetiu na audiência que alguns choques de preços foram "mais fortes e disseminados" que o esperado pela autoridade monetária. Ele reforçou que o BC segue olhando com atenção o aumento das expectativas de mercado para a inflação também em 2022.

"Temos uma inflação em 12 meses rodando em um nível bastante alto, indesejável, em 8,99%. Temos falado também dos núcleos de inflação com as médias subindo. Acompanhamos de perto a parte de serviços, que é um componente muito grande na economia. Mas começamos a ver alguma acomodação em algumas áreas, com o câmbio e commodities se acomodando", acrescentou.

Fatores

Roberto Campos Neto traçou uma sequência de fatores que pressionam inflação brasileira, do quadro externo à crise hídrica. "Em 2020 havia críticas de que o BC ia perder a meta porque a inflação era muito baixa, com um desvio muito para baixo. Nada disso se concretizou. Tivemos um programa auxílio emergencial muito grande, que se reverteu em mais consumo em um momento de parada de produção. Como o mundo fez o mesmo movimento, houve uma alta muito grande de commodities. Houve movimento dos produtores de petróleo e a moeda brasileira se desvalorizou mais do que a de outros países. E aí vieram os fatores climáticos, com onda de frio e agora a maior crise hídrica da história", detalhou. "Alguns desses fatores de inflação são temporários, mas se dissiparam mais que imaginado", reconheceu.

Ao admitir que a inflação está de fato pressionada no Brasil, Campos Neto lembrou que o instrumento que o BC tem é elevar a taxa de juros. "O BC surpreendeu o mercado em quase todas as reuniões recentes, subindo a Selic de forma mais agressiva e fazendo a mensagem de que o BC é sério sobre as metas e vai persegui-las no horizonte relevante", completou.

Para o presidente do BC, é necessário também aumentar a oferta e a produtividade. "Para isso, é preciso credibilidade também. Por isso, é uma tarefa que o BC faz de um lado, mas à medida que mostramos que estamos saindo da crise com um fiscal melhor, com uma agenda reformista, as pessoas voltarão a acreditar no País e a investir. E termos um reequilíbrio de fatores", acrescentou.

Mais uma vez, Campos Neto destacou as ações do Banco Central durante a pandemia, que levaram a uma expansão de dois dígitos no crédito. "O Brasil foi um dos países onde o crédito mais cresceu. Apesar da alta de juro na ponta, as taxas seguem em níveis baixos", destacou.

Ambiente externo

O presidente do Banco Central avaliou que o mundo ainda vai passar mais algum tempo em um ambiente de juros baixos e liquidez alta. "Vamos precisar verificar qual é o impacto da variante delta no crescimento de alguns países. Temos que entender que essa normalização dos países desenvolvidos em algum momento vai significar juros mais altos. Se alta de juros for por causa de crescimento robusto, vai ter um impacto para emergentes, se for por causa de inflação, vai ter outro impacto para os emergentes", repetiu, na audiência.

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