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Discurso pró-mercado continua, mas na prática é diferente

José Fucs

01/09/2021 17h00

Nos quatro meses e meio em que está à frente da Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna não promoveu um movimento disruptivo em relação às diretrizes adotadas na gestão do economista Roberto Castello Branco.

Mas, ainda que oficialmente a Petrobras continue a usar as cotações do petróleo importado, acrescidas do custo do frete e das taxas portuárias, como base para a definição dos preços dos combustíveis no País, os reajustes estão ocorrendo de forma mais espaçada do que antes. Pode parecer algo estranho, em meio à escalada de preços observada nos últimos tempos, mas é o que está acontecendo, de acordo com um ex-executivo da companhia que acompanha o assunto de perto. Isso acaba levando a Petrobras a absorver, entre um reajuste e outro, variações ocorridas nos preços do petróleo importado, em prejuízo de seus acionistas.

O mesmo se pode dizer sobre a privatização das refinarias da empresa, que foi bem encaminhada pela gestão anterior, segundo o ex-executivo ouvido pelo Estadão. Embora a Petrobras informe que "continua comprometida" com a venda, falta liderança para "empurrar" o processo e enfrentar a resistência da corporação. Há também insegurança de potenciais compradores em relação à política de preços praticada pela companhia, por mais que ela reforce a disposição de manter a paridade com as cotações externas.

Na semana passada, a Petrobras até anunciou a venda da refinaria Isaac Sabá (REMAN), localizada em Manaus, por US$ 189,5 milhões (R$ 985,4 milhões), e reafirmou a intenção de se desfazer de outras quatro refinarias ainda este ano, conforme cronograma definido no aditivo ao Termo de Compromisso de Cessão (TCC) firmado com o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Mas, ao mesmo tempo, a empresa informou que os investidores interessados na compra da refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, cuja construção custou R$ 20 bilhões, um recorde mundial, desistiram do negócio.

Mais do que um desdobramento normal de um processo de privatização de um ativo desta grandeza, o fracasso das negociações para a venda da RNEST revela muito sobre a percepção dos investidores em relação ao momento vivido pela Petrobras e pelo País. Como apurou o Estadão, o grupo indiano Essar, que era um dos interessados, decidiu abandonar a negociação por temer um eventual controle de preços de combustíveis, insinuado pelas seguidas afirmações de Bolsonaro sobre a questão, e a Cosan, que era o outro interessado, resolveu seguir o mesmo caminho.

Nada, porém, parece ter mudado tanto na Petrobras após a chegada de Silva e Luna quanto o horário de trabalho no gabinete da presidência, segundo informações obtidas pelo Estadão. Como nos quartéis, em que o expediente se encerra às 17h, é difícil encontrar o general no batente depois disso. Mesmo para tratar de assuntos mais urgentes, ninguém quer incomodar o chefe à noite.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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