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Principal fator para desvio em relação à meta veio de inflação importada, diz BC

Brasília

11/01/2022 17h54

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, decompôs a influência quantitativa de cada fator determinante para o desvio da inflação de 2021 à meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), em carta endereçada ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para explicar o descumprimento de seu mandato principal.

O IPCA, o índice oficial de inflação, terminou o ano passado em 10,06%, 4,81 pontos porcentuais acima da banda superior do objetivo a ser perseguido pelo BC (5,25%) - o maior desvio em quase 20 anos, já que, em 2002, o "estouro" foi de 7,03 pontos porcentuais. O centro da meta era de 3,75%. A última vez que o teto da meta havia sido rompido, em 2015, a distância havia sido de 4,17 pontos porcentuais, quando o IPCA registrou alta de 10,67%.

Na carta, Campos Neto destacou que o principal fator para o desvio de 6,31 pontos porcentuais em relação ao centro da meta de 2021 (3,75%) foi a inflação importada, com contribuição de 4,38 pontos porcentuais, ou cerca de 69% do total.

"Abrindo esse termo, destacam-se as contribuições de 2,95 p.p. do preço do petróleo, 0,71 p.p. das commodities em geral, medidas pelo Índice de Commodities - Brasil (IC-Br), e 0,44 p.p. da taxa de câmbio", explicou ele.

Conforme Campos Neto, a inércia da inflação do ano anterior teve contribuição de 1,21 ponto porcentual e a bandeira tarifária de energia elétrica, de 0,67 ponto porcentual, refletindo a adoção da bandeira escassez hídrica com a seca registrada no País no ano passado. A bandeira escassez hídrica, adotada em setembro, custa R$ 14,20 em tarifa adicional a cada 100 quilowatt-hora utilizados pelo consumidor.

O presidente do BC ainda afirmou que as expectativas de inflação medidas pela pesquisa Focus contribuíram com 0,25 ponto porcentual da inflação em relação à meta. No modelo, ainda são considerados "demais fatores", como a variação do IGP-M, e questões específicas ligadas a medicamentos, plano de saúde e anomalias climáticas, mas que não foram destrinchadas por Campos Neto.

Ele ainda mencionou que, no modelo desagregado de pequeno porte, encontra-se que os preços de bens industriais contribuíram com 1,77 ponto porcentual para o IPCA de 2021, "refletindo os problemas logísticos e os desequilíbrios entre oferta e demanda globais".

Em sentido oposto, o hiato do produto estimado negativo, ou seja, o nível de atividade econômica abaixo do crescimento potencial, teve contribuição de baixa de 1,21 ponto porcentual em 2021. "Portanto, de acordo com essa decomposição, houve uma combinação de choques de custos que foi contrabalançada parcialmente pelo hiato do produto negativo", sintetizou Campos Neto.

Preços administrados

Na carta aberta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para justificar o descumprimento da meta de inflação de 2021, Campos Neto fez uma análise detalhada dos componentes que mais contribuíram para o desvio. Campos Neto destacou, por exemplo, que a alta dos preços administrados, em meio ao avanço do petróleo e à crise hídrica, só ficou atrás dos anos de 1999 e 2015.

Campos Neto destacou que o aumento dos preços de commodities em reais, o aumento da energia elétrica e os desequilíbrios na cadeia de bens provocados pela pandemia de covid-19, fatores principais para o rompimento da meta, se traduziram em "grandes variações em diferentes componentes" de preços.

O presidente do BC citou que o aumento dos preços administrados (16,90%), com contribuição de 4,34 pontos porcentuais para o IPCA de 2021, só foi menor que nos anos de 1999 e 2015, refletindo os aumentos de combustíveis e energia elétrica. "Os preços de gasolina, gás de bujão e energia elétrica residencial subiram 47,49%, 36,99% e 21,21% (contribuições de 2,33 p.p., 0,41 p.p. e 0,98 p.p.), respectivamente. O preço do etanol subiu 62,24%, acima dos demais combustíveis, refletindo também a quebra na safra de cana-de-açúcar", citou.

Ele ainda mencionou que o aumento de bens industriais (12%) e alimentação no domicílio (8,23%), contribuições de 2,75p.p. e 1,25p.p., respectivamente, foram bastante afetados pelos preços de commodities e os gargalos globais nas cadeias produtivas. Campos Neto também citou o aumento de 4,75% dos preços de serviços, com contribuição de 1,72 ponto porcentual.

No documento, o presidente do BC lembra que a inflação de serviços foi particularmente afetada pela pandemia de covid-19, refletindo em boa medida a evolução do distanciamento social, com o grupo atingindo o mínimo histórico de 0,95% no IPCA em 12 meses até agosto de 2020, fechando aquele ano em 1,73%. Contudo, com a reabertura econômica propiciada pelo avanço da vacinação, os preços de serviços começaram a se recompor este ano.

"Em outras palavras, uma parcela da inflação de serviços em 2021 está relacionada à normalização, em nível, de preços que estavam deprimidos em decorrência dos impactos específicos da crise sanitária", disse Campos Neto, na carta.

A carta aberta é uma exigência do sistema de metas, criado em 1999, quando a inflação fica fora do intervalo de tolerância, para explicar as razões do descumprimento e indicar providências para o retorno à meta, assim como o prazo para que isso ocorra.

A última carta enviada pelo BC para justificar o descumprimento do seu mandato foi relativa ao ano de 2017, mas, daquela vez, o presidente à época, Ilan Goldfajn, teve de explicar o porquê de a inflação ter ficado aquém da meta, em 2,95%. Além de 2015 e 2002, o limite superior da meta também foi rompido em 2001 e 2003.

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