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Campos Neto: cobrança de economistas de grande corte de gastos em arcabouço é um pouco injusta

Brasília e São Paulo

25/05/2023 17h23

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, avaliou que a cobrança dos economistas por corte de gastos no novo arcabouço fiscal é um "pouco injusta", considerando a dificuldade que o País tem de reduzir despesas. O arcabouço fiscal foi aprovado na Câmara esta semana, com "votação estrondosa", segundo Campos Neto, mas parte do mercado financeiro avalia que as regras de controle de gastos ainda ficaram frouxas, especialmente no primeiro ano de vigência.

"Tema fiscal é super difícil, porque o Brasil não tem um histórico de conseguir controlar gastos. Nem nesse governo, nem no outro governo, nem em nenhum governo. Tivemos fases melhores e piores, mas quando olhamos um intervalo de 30 anos, o Brasil teve dificuldade", disse Campos Neto, em entrevista à GloboNews. "Temos um plano fiscal, existe uma ansiedade de economistas de cobrar grande corte de despesas, que às vezes é um pouco injusto, porque isso nunca foi feito, ainda mais em um governo que tem opiniões diferentes", completou.

Campos Neto ainda afirmou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é a sua principal interlocução com o governo, mas que também conversa com a ministra do Planejamento, Simone Tebet, e com Gabriel Galípolo, número 2 da Fazenda e indicado à Diretoria de Política Monetária do BC.

Sobre Haddad, disse que é uma pessoa fácil de conversar. "Temos bom relacionamento."

Harmonia entre políticas fiscal e monetária

Segundo o presidente do BC, há harmonia entre a política fiscal e a monetária, mas os tempos são diferentes e isso precisa ficar claro.

As medidas fiscais têm impacto mais rápido, enquanto a política monetária demora de 9 a 15 meses para fazer efeito, afirmou ele. "Existe harmonia, mas tempos são diferentes, precisamos conversar e consolidar isso."

Votação do arcabouço e reflexo nos juros longos

Ao reconhecer que a votação do arcabouço fiscal na Câmara foi "estrondosa", Campos Neto destacou que ao longo do "processo" os juros longos já caíram "bastante". Salientando o trabalho do Congresso e de Haddad, ressaltou que o placar "estrondoso" ocorreu em um tema muito importante. "Taxa de juros longas já caíram bastante, quase 2% nos últimos meses."

Questionado sobre se, então, a queda da taxa Selic era uma questão de quando, o presidente do BC desconversou e repetiu que é apenas um voto de nove no colegiado.

Campos Neto reforçou que o BC toma decisões observando a inflação corrente, a capacidade da economia crescer sem inflação e as expectativas inflacionárias.

Poder de influência nas expectativas de inflação

O presidente do Banco Central reiterou que não existe relação mecânica entre a apresentação do arcabouço e a política monetária, mas afirmou que a nova regra fiscal tem poder de influenciar a expectativa de inflação futura e, por isso, eliminou o medo dela sair de controle.

"O arcabouço deixa claro que esse medo não existe mais, eliminou os riscos de cauda e o mercado já está reconhecendo isso, as taxas de juros longas estão caindo", disse na entrevista à GloboNews. "Qualquer tipo de reforma ajuda."

Na sequência, Campos Neto declarou que o Congresso - em sua análise, super mobilizado e reformista - está passando a mensagem correta no sentido de ajudar o trabalho do Banco Central (BC).

O presidente do BC, porém, reiterou que a autarquia tem um timing e precisa esperar para ver como o arcabouço vai se transformar em melhora de expectativa.