Inflação global começa a dar sinais de desaceleração, reitera diretora do BC

A diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do Banco Central, Fernanda Guardado, repetiu nesta terça-feira, 15, que a inflação global começa a dar sinais de desaceleração, o que é uma boa notícia. "A má notícia é que boa parte da desinflação global deve-se a itens mais voláteis, como alimentos e energia. É bom que esses preços voltem, mas é difícil contar com uma contribuição persistente desinflacionária desses segmentos", afirmou, em live promovida pela Bradesco Asset.

Por outro lado, os núcleos de inflação seguem com desinflação lenta. "Em países avançados, a inflação de serviços não chegou nem no pico. Isso reforça a nossa percepção de uma desinflação em estágios", reafirmou a diretora.

Fernanda Guardado destacou que a persistência da inflação de serviços também é observada na América Latina. "O quão persistente será inflação de serviços em diversas economias é uma incerteza que ronda o nosso cenário prospectivo", completou.

A diretora mostrou um gráfico sobre como a taxa de juros real em muitos países voltou para campo positivo após anos. "Essa é a taxa relevante para as decisões de investimentos por empresas e famílias", concluiu.

Riscos para 2024

Fernanda Guardado disse ainda que, no cenário externo, o risco de mais curto prazo mais preocupante para 2024 é a incerteza sobre a persistência da inflação global e suas implicações sobre quanto tempo a política monetária de países avançados será contracionista.

"Vindo do exterior, esse é o risco de mais curto prazo. A economia americana tem sido constante fonte de surpresa positiva, mas entra em um período de mais incerteza sobre suas defasagens de política monetária e como será a política fiscal lá. Pode haver mais incertezas sobre como a economia americana vai performar em 2024, em um ambiente em que a segunda maior economia do mundo, que é a China, tem problemas. Para 2024, vemos algumas nuvens se formando", afirmou a diretora.

BC com postura cautelosa

Fernanda Guardado reafirmou que o BC segue com uma postura cautelosa e prudente no processo de redução de juros para garantir que a desinflação vai se desenrolar da forma projetada. "Uma das possibilidade de expectativas desancoradas é a incerteza com relação à execução das metas fiscais do governo, mas o ministro Fernando Haddad está bastante comprometido. Vamos acompanhar, isso está impactando as expectativas. O Ministério da Fazenda tendo sucesso nas medidas de tributação, pode até dar uma ajuda para as expectativas de inflação caírem um pouco mais", completou.

A diretora repetiu ainda a avaliação de que o fato de o BC ter sido tempestivo no atual ciclo de juros ajudou a atividade a sofrer menos do que em outros ciclos. "E há um impulso fiscal que ajudou nos últimos anos. Tem havido aumento de despesas (públicas) que tem sustentado em parte o consumo das famílias", destacou.

Riscos

Fernanda Guardado disse também que a economia global ainda está cercada de muitos riscos, com bastante incerteza de no horizonte da política monetária e da inflação. "Entre os riscos altistas no pós-pandemia, ainda temos o risco de uma maior persistência inflacionária, taxas de juros neutras mais altas, mercado de commodities mais apertado e transição energética que pode ter impacto na inflação e fragmentação geoeconômica", afirmou.

Do lado dos riscos baixistas para a inflação, Guardado citou a possibilidade de desaceleração forte do crédito nos Estados Unidos, Europa e China.

A lista inclui ainda risco de instabilidade financeira, apertos excessivos dos bancos centrais com o processo sincronizado das políticas monetárias globais, além da desaceleração da China. "Cortamos dessa lista o risco de uma recessão muito forte nos EUA no curto prazo", completou.

Para a diretora, é fato que o mundo caminha para um cenário de crescimento mais baixo não apenas em 2023, mas também para 2024 e nos anos seguintes. "A projeção do FMI é de estabilização de um crescimento substancialmente abaixo do observado nas últimas duas décadas. O mundo vai crescer menos e parte disso está relacionada com o esforço para controlar a inflação global. Tem sido um episódio longevo de inflação fora das metas", acrescentou.

China e fim da política de covid zero

Fernanda Guardado avaliou também que o cenário de crescimento mais fraco na China deixou de ser apenas um risco e agora está se materializando. "O fim da política de covid zero não se revelou um impulso tão forte para o crescimento de curto prazo como se verificou em outras economias", analisou.

Ela destacou que não havia tanto excesso de poupança na China para fomentar o retorno do consumo após as restrições relacionadas à covid. "A renda das famílias chinesas ainda está 5% abaixo do pré-pandemia", acrescentou. "A taxa de desemprego entre os jovens chineses está em 20%", agregou.

Para a diretora, esses fatores se juntam à desaceleração do mercado imobiliário na China, com a falência de grandes incorporadoras. "As famílias encaram a habitação como outra fonte de poupança. A China tem problemas conjunturais e estruturais de crescimento, o que impacta claramente o cenário global", concluiu.