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"Brasil continuará afundando e se tornando cada vez mais irrelevante", diz Monica de Bolle

SÃO PAULO - Falha de comunicação do Banco Central brasileiro, que está com a credibilidade cada vez mais erodida, um novo ministro da Fazenda que reitera a Nova Matriz Econômica e que já se tornou irrelevante. Neste cenário, quem manda na política econômica é, mais do que nunca, a presidente Dilma Rousseff, que volta a usar as políticas do primeiro mandato, acreditando que desta vez pode dar certo. 

Para Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional em Washington, isso é apenas insistir no erro que deve trazer consequências bastante negativas para o Brasil. "O Brasil vai continuar afundando e se tornando cada vez mais irrelevante", afirma. 

Em entrevista ao InfoMoney, Monica destaca o sentimento de perplexidade dos estrangeiros com relação às políticas adotadas pelo País, que são destacadas também através das questões não somente econômicas, mas também de saúde, como ficou deflagrado com a crise do zika vírus e a demora das autoridades brasileiras para responder a esse grave problema, que ganhou destaque internacional. 

Confira abaixo a entrevista: 

InfoMoney - Primeiramente, gostaria que você comentasse um pouco aquela turbulenta decisão do Banco Central do final de janeiro, quando ele sinalizou durante dois meses que iria subir os juros para, no final, mudar a sinalização e manter os juros. A decisão do BC se mostra acertada? Qual é o efeito sobre a credibilidade da autoridade monetária?

Mônica de Bolle - Acredito que a decisão foi acertada, estava no campo daqueles que diziam que o BC não deveria subir juros agora. Tenho há vários meses sustentado o argumento que o Brasil está passando por um problema que chamamos de dominância fiscal, o que quer dizer que a inflação é causada pelas contas públicas desarranjadas. Então não há solução para a inflação que não passe pelo ajuste fiscal. Neste aspecto, aumentar juros não adianta.

Achei a forma como a comunicação foi feita ruim, mas eu não me surpreendi em nada com o fato do BC manter no fim das contas a Selic em 14,25%. Arrumaram mesmo uma desculpa, porque dizer que foi o cenário do FMI [que fez manter a Selic] é balela, o BC tem seus próprios modelos.

IM - Então quer dizer que cada vez mais o Dilma 2, está se aproximando do Dilma 1, culpando a crise externa para fazer política de crédito?

MB - Entre o Dilma 1 e o Dilma 2 teve um interregno mediano que durou 12 meses. Ela vai fazer a mesma coisa que ela teria feito sem [o ministro da Fazenda até dezembro de 2015] Joaquim Levy.

IM - Se aumentar os juros acaba tendo um impacto reverso neste momento de "dominância fiscal" qual é o papel do BC?

MB - Pois é, eu vejo assim: se o diagnóstico é que a inflação está alta porque há o fiscal descontrolado e a economia completamente reindexada, infelizmente, a política monetária do BC tem limites e, se esse diagnóstico sobre a inflação brasileira estiver correto, isso significa que a política monetária bateu no limite. E qual é o papel do BC quando a política monetária bateu no limite? Para começar, não atrapalhar, essa é a primeira coisa que o BC tem que fazer. E isso que fizeram no Copom gerou uma bela de uma trapalhada.

O BC feriu aquele princípio do juramento de Hipócrates "first do no harm", primeiro não prejudique, não provoque danos. 

Não dá pra você ficar falando em aumentar o crédito público e na mesma frase dizer que vai combater a inflação porque as duas coisas são incompatíveis. Caberia ao BC agora dar um tipo de sinalização e fazer um discurso que já fizeram no passado. Por que não fazem? Acho que essa pergunta eles têm que responder para a sociedade brasileira.

IM - O BC está um pouco perdido, assim como o governo?

MB - Sim.  O governo já decidiu que não quer fazer ajuste fiscal, quer fazer política expansionista e o BC fica de mãos atadas. Ele não pode fazer nada porque mesmo que aumentasse os juros agora tem o governo agindo contra. Então de fato fica sem estratégia.

Agora, o meu ponto é o seguinte, melhor dizer isso então.  Se o BC tem autonomia por que não dizer, "olha nós temos um problema que é o seguinte, o governo hoje está querendo fazer x e y e vai de encontro à necessidade de combater a inflação; portanto estamos aqui esperando o governo tomar uma atitude para ajudar-nos a combater o problema inflacionário no Brasil". O BC não tem mais o que fazer. Mas, quanto mais transparente esse tipo de comunicação com a sociedade é melhor, mas duvido que vai ser desse jeito. As trapalhadas de comunicação de 2011 para cá já foram muitas.

IM - Um artigo seu do final do ano passado sugere que  o Brasil deveria abandonar o sistema de metas de inflação temporariamente e adotar um regime de banda cambial flutuante. Como que seria esse modelo e qual seria o papel do BC? Ele poderia ser mais ativo caso essa medida vigorasse?

MB - Se de fato existe dominância fiscal e não há política monetária para fazer, a única coisa que teríamos seria a política fiscal para combater a inflação. Se o governo não quer fazer ajuste fiscal então não tem nada, não tem nem âncora fiscal e nem âncora monetária. 

Não tem nem uma âncora monetária nem uma âncora fiscal a inflação vai dispara. A gente já viu isso no Brasil. N o Brasil, os erros se repetem com muita frequência.

Nessa hora, não sobram muitas alternativas. E as alternativas que sobram são todas ruins. Então, essa alternativa de ter uma âncora cambial é "a melhor má ideia". É realmente isso. 

Agora, como você faz isso? Só faz isso se tiver uma banda cambial, para que ela serve? A banda cambial serve para ancorar temporariamente os preços, mas é temporária, ela não dura. Mais cedo ou mais tarde ela vai ser abandonada de uma forma ou de outra. As condições para que ela dure dependem da quantidade de reservas que você tem e a credibilidade de que o governo desfruta. Nas nossas condições atuais reserva até a gente tem, credibilidade eu já não sei, acho que não...

IM - E sempre voltam as especulações sobre o uso das reservas e para que fins...

MB - Já estão querendo mexer nas reservas para outras coisas, então a minha resposta pra isso é a seguinte: a melhor má ideia é a âncora cambial, então a reserva usa para a melhor má ideia, não vai usar para outra coisa. E se usar para a melhor má ideia tem que usar de pouquinho, tem que fazer uma banda larga e uma banda que permita você algum grau de liberdade nesse controle do câmbio. A vantagem é que é mais transparente que os swaps cambiais que o BC anda fazendo.

Não nos enganemos, o BC está há meses controlando câmbio. Quem argumenta que é bobagem e regime de câmbio flutuante é o que vale a gente não tem câmbio flutuante no Brasil hoje. Se a gente fosse deixar realmente o cambio flutuar, tirar todos os swaps da mesa, o câmbio não estaria em R$ 4 que é onde está agora, estaria muito mais desvalorizado do que isso.

Melhor seria você usar a melhor má ideia que é, usar diretamente as reservas para fazer essa operação dá saída para as pessoas, dá saída em dólar se elas quiserem. Agora, só consegue fazer isso muito bem se tiver credibilidade. Erodindo a credibilidade à toa com essas comunicações esquisitas que o BC vem fazendo nos últimos tempos, principalmente essa ultima, esquece, nunca vai conseguir operacionalizar nem a melhor má ideia. Esse é o drama do Brasil hoje, nem a melhor má ideia você consegue fazer.

IM - Sobre o Ministério da Fazenda: como você avalia esses primeiros meses do Nelson Barbosa à frente da pasta? 

MB - O que eu vi até agora foi negativo e não me surpreendeu. Vi tentativas de reeditar coisas que não deram certo no passado, uma absoluta falta de convicção da necessidade do ajuste fiscal apesar das pessoas terem dito que o Nelson Barbosa no posto do Levy manteria a ideia do ajuste. Mas  não é isso o que a gente está vendo.

Além do que, tendo sido ele a pessoa uma das formuladoras da nova matriz econômica, mostra como é evidente que as pessoas não mudam de ideia. Eu sou muito cética em relação à capacidade do ser humano de alterar suas convicções. Uma pessoa que tinha convicção que a tal na nova matriz daria certo não pode hoje ser uma pessoa que sabe que a nova matriz deu errado. Para mim isso é o que define já de pronto as convicções do novo ministro.

Além disso, o Nelson Barbosa é uma pessoa que já trabalhou com a Dilma e que já foi por ela administrada, digamos assim. As declarações que saíram do Jaques Wagner logo quando Levy saiu mostrou que quem manda na economia é a Dilma. Pois bem, que manda na economia é a Dilma, estou convencida disso, até que me convençam do contrário não me importa quem, não me importa se é o Nelson Barbosa que está lá, ele virou ministro irrelevante depois dessa declaração.

IM - Se o  BC já teve a credibilidade erodida, a Fazenda é irrelevante, sobrou apenas então o que a Dilma pensar sobre economia? Como é que ficam as perspectivas para a economia brasileira nesse cenário? 

MB - O Brasil vai continuar afundando e se tornando cada vez mais irrelevante. Aqui nos EUA há um senso de perplexidade absoluto em relação ao Brasil. As pessoas olham pra mim e perguntam como um país pode estar se auto-inflingindo a esse tipo de dor dessa maneira, não tem resposta para isso. A única forma de responder essa pergunta é falar sobre convicção errada.

Infelizmente a gente vai continuar trilhando esse caminho até o momento que não der mais. Até a hora que disserem chega, que forem para as ruas, o eleitor mude as coisas. Não estou vendo muita alternativa que não seja essa. Como eu disse antes eu não acredito na capacidade das pessoas de mudar de ideia. Eu não acho que a presidente Dilma acredite realmente que um ajuste fiscal nesse momento não é só necessário como absolutamente crucial senão nada volta. Nada volta e o Brasil vai se tornar cada vez mais irrelevante, mas acho que ela não acredita nisso.

IM - Esse cenário de deterioração pode continuar até 2018 ou vai chegar a um ponto antes disso em que não dará mais para continuar?

MB - A forma como as coisas estão sendo feitas vai levar sim a um aumento crescente do desemprego, vai manter a inflação alta, vai corroer muito a qualidade de vida das pessoas.  Eu temo que Dilma tente fazer coisas que já foram feitas antes e deram resultado ruins esperando que elas vão agora dar resultados bons. Isso é muito difícil de prever. 

E aí é essa história se o brasileiro vai ter paciência para aguentar três anos disso e resolver nas urnas em 2018. Ou não vai ter paciência e vai passar por um período de ebulição. A ver, isso depende muito da psicologia coletiva. Sinceramente não sei. Não sei para que lado isso pode ir, mas o que posso dizer é o seguinte, mais de três anos não vai dar. Nesse horizonte aí até três anos alguma mudança radical vai ter que acontecer na política econômica brasileira.

IM - E soma-se a isso a crise do zika...

MB - E na condição do país de forma mais geral, falando de economia só. Mas na verdade quando você olha de fora para o Brasil o que você vê é um colapso de tudo. Essa história do Zika e a demora das autoridades brasileiras para o enfrentamento dessa crise de saúde. Você vê nisso como as instituições, a capacidade de resposta de resposta do governo está absolutamente alarmada é praticamente inexistente.

 O problema da epidemia do Zika já está conosco há algum tempo e o governo brasileiro ao invés de tomar uma atitude deixou que os Estados Unidos emitissem esses alertas de viagem para o Brasil, arranhou totalmente a imagem do país. Todos os dias tem uma noticia no New York Times sobre a crise da saúde no Brasil, isso em véspera de Olimpíada.

Isso demonstra a mais completa falta de capacidade de administrar um país. É como disse o Delfim em uma entrevista dele, o que ele disse vale para tudo, não existe regime presidencialista sem presidente. O Brasil hoje não tem presidente. Então está tudo em crise, economia está em crise, saúde está em crise, educação está em crise.

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