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Conheça a estratégia e o que pensam os gestores do melhor fundo de ações do último ano

07/03/2016 14h30

SÃO PAULO - Ganhar dinheiro na Bolsa nos últimos anos não foi tarefa das mais fáceis e poucos investidores podem se vangloriar de terem obtido sucesso neste mercado. O fundo XP Long Biased foi um dos que melhor conseguiu capturar movimentos de baixa e de alta da Bovespa com consistência desde 2013. Nos últimos 12 meses, marcados por muita volatilidade e incertezas no mercado acionário, o fundo foi o mais rentável da indústria, com retorno de 32,69%. Desde o início, em outubro de 2013, a valorização foi de 46,10%, ante queda de 9,39% do Ibovespa.

O segredo, segundo os gestores, está em mesclar uma boa carteira de ações compradas (long), baseada em fundamentos das empresas e com perspectiva de longo prazo, com algumas posições vendidas aproveitando o momento. “É um fundo de ações em que temos a maior liberdade possível. Buscamos trabalhar com uma carteira comprada de ações em que acreditamos nos fundamentos de longo prazo. Se achamos que o mercado vai subir, ficamos 100% comprados. Se o mercado mudar de direção, podemos defender esta carteira de várias formas: via opções, vendendo índice, fazendo “short basket” (venda de uma cesta de ações previamente escolhidas pelo gestor) ou apenas ficando menos expostos”, diz João Luiz Braga, co-gestor do fundo.

As posições compradas costumam ficar na carteira por um bom tempo, assim como nos fundos long only (que têm apenas posições compradas). Desde que o fundo iniciou as operações, cerca de 40% das ações compradas não mudaram. “Aumentamos ou diminuímos o tamanho das posições, mas a base da carteira long segue a mesma. Temos entre 10 a 15 papéis”, afirma Marcos Peixoto, CEO da XP Gestão de Recursos e co-gestor do XP Long Biased.

Ainda que a base long do portfólio pouco mude, os gestores são muito ativos e costumam aproveitar bem movimentos de curto prazo da Bolsa, o que garante um bom incremento na rentabilidade. Na última quinta-feira (3), por exemplo, quando o Ibovespa subiu 5,12% após notícias de que o senador Delcídio Amaral havia citado o nome do ex-presidente Lula e da Presidente Dilma Rousseff na delação premiada da operação Lava Jato, eles aproveitaram para alavancar o fundo e ganhar mais com a alta da Bolsa. “Normalmente ficamos comprados entre 40% e 60%. Naquele dia vimos logo cedo a tendência de alta enquanto o Ibovespa futuro ainda subia 1% aproveitamos para aumentar nossa exposição vai contratos futuros na BMF e ficar 120% comprados”, diz Braga. Só naquela quinta-feira o fundo ganhou 3,34%, e a alta se estendeu pela sexta-feira (4), quando a cota do XP Long Biased valorizou mais 3,94%.

Apesar de operarem movimentos pontuais da Bolsa, os gestores destacam que a estratégia do fundo é de longo prazo e que o investidor nunca deve tentar “operar a cota”, ou seja, comprar e vender de acordo com eventuais altas e baixas. “Este é justamente o trabalho do gestor”, diz Braga.

Entre as ações que mais beneficiaram o fundo nos últimos meses os gestores citam Cosan, São Martinho e Cetip – apesar de continuarem acreditando no potencial das três empresas, o fundo optou por vender os papéis após a recente valorização. No caso da Cosan e da São Martinho, Braga destaca que o setor de açúcar e álcool vinha enfrentando anos difíceis, com uma dívida muito alta. “Muitas usinas estavam fechando”, lembra. Em meados de 2015, o açúcar estava perto da cotação mínima em dólares, mas começou a se recuperar. Os gestores, então, fizeram um estudo sobre demanda e oferta de açúcar no mundo todo e descobriram que depois de 4 anos de superávit de produção de açúcar no mundo, 2016 poderia ser um ano de défict – o que ajudaria na alta dos preços. “Com a alta do dólar, o preço em reais do açúcar estava ‘explodindo’. Então vimos um bom argumento de médio prazo”, diz Braga.

Outro ponto que pesou para a compra dos papéis foi a produção de etanol no país. “Com a situação da Petrobras, não acreditamos que o preço da gasolina iria cair. Portanto, o etanol também estava sustentado pelo preço da gasolina. E os valuations estavam muito baratos”, diz o gestor. O fundo comprou São Martinho a um preço médio de cerca de R$ 31 e Cosan perto dos R$ 19. A venda aconteceu com São Martinho perto dos R$ 50 e Cosan em R$ 26. “Não quer dizer que não gostamos mais dos papéis. Continuamos olhando o setor”, diz Peixoto.

Outra posição que ajudou na valorização do fundo foi Cetip, que se destaca pela forte geração de caixa e pela resiliência em momentos difíceis da economia. “Mesmo com a queda do PIB (Produto Interno Bruto), os lucros da empresa continuam crescendo”, justifica Peixoto. Isso acontece porque a Cetip trabalha com várias linhas de negócio, o que garante boas receitas independentemente do cenário. “Nenhuma linha tem mais de 10% da receita. É muito pulverizado”, diz.

O fundo decidiu vender a posição por conta do risco de M&A (fusão e aquisição, na sigla em inglês). No final do ano passado, a BM&FBovespa fez uma proposta de compra da empresa por R$ 39 a ação. “O papel estava cotado a R$ 38. Tinha 3% para ganhar, se tudo desse certo. Mas havia o risco de perder muito. Não gostamos de correr este tipo de risco, então optamos por zerar a posição”, afirma o gestor.

Principais posições compradas atualmente

Transmissão Paulista

A maior posição comprada do XP Long Biased é a Transmissão Paulista. Um dos principais drivers para o papel é regulatório, já que a empresa perdeu a concessão em 2012, quando o governo mudou as regras do setor elétrico, mas ainda não foi indenizada – o valor a ser pago foi calculado em R$ 3,9 bilhões. “É um valor bem relevante e já foi confirmado que a companhia receberá esta quantia. O que falta é saber em quanto tempo será recebido e qual o reajuste que vai ser aplicado”, diz Peixoto. Existem informações ainda não confirmadas de que a empresa deve receber a partir de 2019, mas o valor será corrigido pela inflação mais 7% ao ano. “É um reajuste bem relevante”, diz. Além disso, especialistas em tributação afirmam que a empresa não deve pagar Imposto de Renda por esta quantia. “Por estes motivos, mesmo com a alta recente, nós ainda enxergamos espaço para mais valorização”, avalia o CEO da XP Gestão.

BB Seguridade

Outro papel que faz parte da posição comprada do fundo Long Biased da XP é o da BB Seguridade. “A companhia cresceu bastante no ano passado e o guidance (projeção) para 2016 é crescimento de 10% de lucro”, diz Peixoto.

A empresa é bastante focada em previdência privada, que mesmo com a crise tem mostrado crescimento importante nos últimos anos. Outra parte relevante dos negócios é a capitalização, que também tem forte apelo entre os clientes bancários. E ainda há a parte de seguros de vida, que também mostra resiliência na crise. Segundo o gestor da XP, um dos maiores receios do mercado é que o Banco do Brasil (um dos controladores da BB Seguridade) precise vender mais ações da empresa no mercado para fazer caixa. “É um risco que existe. Mas é um papel resiliente, de uma empresa que cresce e paga dividendo recorrente”, justifica.

Bradesco

A terceira posição relevante na ponta long do fundo são as ações do Bradesco. Apesar de depender mais da atividade econômica, a equipe da XP Gestão acredita que as ações do banco estejam descontadas principalmente quando comparadas ao Itaú, seu principal concorrente. “A diferença de valuation entre Bradesco e Itaú é muito grande. Bradesco está negociando a 1X valor patrimonial, enquanto Itaú está perto de 1,3X . É 30% de prêmio. É uma questão de preço, acho que está barato”, afirma.

Além disso, mesmo com o aumento da inadimplência, o Bradesco conseguiu bons resultados em 2015. “O banco passou a cobrar um spread maior. Uma grande empresa que tomava dinheiro do Bradesco pagando CDI mais 1% ao ano, agora precisa pagar 130% do CDI”, diz Peixoto. Para 2016, ele lembra que as projeções do banco apontam que o PDD (Provisão de Devedores Duvidosos) não cresça tanto, diferente do guidance do Itaú. “O Bradesco está com projeções melhores para este ano”, conclui o gestor.