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Sofrimento da população deve superar ideologias e abre espaço para privatização, diz economista

SÃO PAULO - "Privatização". Esta palavra vem ganhando destaque nas últimas semanas e sai da boca de nomes importantes do governo, caso do presidente interino Michel Temer e do ministro da Fazenda Henrique Meirelles, o que dá ares de anúncio oficial para os estudos realizados pelo governo. 

Em entrevistas realizadas nas últimas semanas, Temer afirmou que privatizará tudo "na medida do possível", mas garantiu que a Petrobras, principal estatal brasileira, está fora do processo  por estar ligada "à ideia de nacionalidade, patriotismo". Porém, indicou que outras companhias devem ser privatizadas, caso do Correios (apesar de achar complicado "porque deu um prejuízo muito grande"), além dos aeroportos de Congonhas (SP) e Santos Dumont (RJ). 

Com tantas sinalizações, o governo deve ficar de olho na recepção da população sobre o programa de privatizações - esse foi um dos cuidados tomados pelo próprio Temer ao se referir à Petrobras, em meio aos ataques de que o governo possa ser "entreguista" ao vender o patrimônio nacional para empresas privadas. Este argumento, inclusive, foi utilizado pelo próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento em Juazeiro, na Bahia, em que afirmou que o governo peemedebista  está agindo para "desmontar programas sociais" e "vender o patrimônio" do país.  "Eles estão tentando criar condições para Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica serem vendidos. Eles não sabem governar e precisam vender o patrimônio público.

Porém, conforme ressalta a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, a resistência da população com relação às medidas a serem tomadas pelo governo neste sentido deve diminuir. 

Em entrevista ao InfoMoney, a economista reforçou ser  muito positivo que se coloque de forma muito clara as sinalizações de que haverá privatizações, uma vez que há um conjunto de empresas que são do governo que não dão lucro e são bastante ineficientes. "Tanto a privatização quanto a concessão têm que avançar muito para tornar a economia mais eficiente. Fora isso, o governo precisa arrecadar. A arrecadação está muito aquém das expectativas para esse ano, a economia não retomando essa arrecadação e, mesmo se houver uma retomada, ela não gannhará força tão rapidamente, então é preciso aumentar a eficiência. Ou seja, há dois lados: um é a necessidade de arrecadação, outro é a necessidade de aumento da eficiência do estado". 

Solange reforça ainda que a população tem uma resistência muito maior com relação a privatizações de empresas como Petrobras e Eletrobras do que no caso de outras empresas, uma vez que elas são símbolos de nacionalismo, o que leva a uma questão mais "ideológica". Mas outras companhias como Infraero, Valec, Correios, Telebras, em que não há uma identificação muito grande da sociedade, é mais fácil entrar neste tema. "Nestes casos, a questão é do governo colocar qual é o custo de manter as empresas e qual será o custo se não privatizar. Porque a alternativa será aumentar impostos, não tem jeito, levando a um aumento da inflação, reduzindo o crescimento. Neste sentido, é mais uma campanha que deve ser feita de comunicação por parte do governo e identificação de empresas que não tenham essa questão ideológica toda por trás". 

Para a economista, o governo já está "marcando terreno" sobre o assunto, uma vez que é preciso que o impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff passe no Senado para iniciar esse processo. "Isso faz sentido já que, enquanto o governo for interino, haverá resistência por parte dos investidores estrangeiros em fazer parte deste processo. Não é o risco do impeachment não passar em si, mas é que esse processo de privatização precisa ser com um governo que não é mais interino". Solange ressalta ainda que essa é uma sinalização de que o governo tem uma percepção correta sobre a economia, que quer melhorar a governança, fortalecer as agências reguladoras, tornar o BNDES mais criterioso.

"Sobre a Petrobras e a Eletrobras, a sinalização também é positiva, com anúncios não são só de nomes pró-mercado, mas também de privatização da BR Distribuidora, mudança de procedimento em relação à regulação de empresas do setor elétrico. Está passando uma mensagem, mesmo que não seja privatizante em si, que entraremos numa fase pró-mercado, abrindo caminho para investimento externo. Isso é importante para o mercado", afirma. 

Além dessas sinalizações, a economista também aponta que o noticiário dos últimos dois anos com a deflagração da Operação Lava Jato, que mostrou um grande esquema de corrupção principalmente na Petrobras, pode diminuir a resistência com relação às privatizações. "Se a interferência estatal não é só ineficiente mas também abre espaço para corrupção, fica muito mais fácil quebrar essa resistência. Não que toda a empresa estatal seja corrupta, mas de certa forma elas são veículos de políticas e políticas acabam favorecendo ambiente de corrupção. Colocando isso, há argumentos para quebrar essa resistência. Não em relação à Petrobras e a Eletrobras especificamente, uma vez que a resistência é grande, mas de aumentar o investimento privado". 

Olhando para o cenário externo, há muitas incertezas, mas é bom para investimentos estrangeiros em emergentes, principalmente no Brasil, onde há mudanças do governo e de diretrizes econômicas. "Há interesse, porque houve uma depreciação grande por conta das políticas econômicas do Brasil dos últimos anos".

Os maiores interessados, provavelmente, serão os chineses, que já deram indicações nessse sentido com a compra de participações em companhia elétricas, caso da State Grid que anunciou aquisição de fatia na CPFL Energia. "A China tem dinheiro e está fazendo uma mudança interna voltando-se mais para o consumo e menos para o investimento e que está buscando ativos no exterior. Já fizeram investimento em óleo e gás, agora estão de olho no setor elétrico, avalio que o apetite é muito grande por vários setores no Brasil. Assim, eles são candidatos fortes a comprar bastante ativos no País". 

O assunto privatização seguirá um tabu, avalia a economista, principalmente para os setores envolvidos diretamente nestas empresas, como sindicatos de trabalhadores. "Porém, na sociedade como um todo, esta questão diminuiu bastante, porque estamos numa situação em que há um entendimento que o desemprego está muito alto, que as reformas são necessárias. O sofrimento da sociedade como um todo fala mais alto do que a ideologia. Mas para os setores envolvidos diretamente não vão diminuir a resistência pois estão ameaçados de alguma força. Existe uma resistência, mas ela é mais setorial do que da sociedade como um todo". 

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