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Itaú-Citi ou Bradesco-HSBC: as semelhanças e diferenças dos dois grandes "deals" do Brasil

SÃO PAULO - O último fim de semana marcou a conclusão de uma das negociações mais esperadas deste ano: a venda do segmento de varejo do Citi Brasil. Por R$ 710 milhões, o Itaú Unibanco ( ITUB4 ) levou as operações de empréstimos, depósitos, cartões de crédito, agências, gestão de recursos e corretagem de seguros do Citi. Mas quem tem boa memória vai lembrar que essa transação foi muito menor do que outro grande "deal" fechado no setor financeiro recentemente: a venda dos ativos do HSBC Brasil para o Bradesco por US$ 5,2 bilhões. Mas o que mais essas duas operações falam para o setor financeiro e para o mercado como um todo?

Antes de partir para a comparação, vamos primeiro ver como o mercado avaliou a compra do Citi pelo Itaú. Para a equipe do UBS, o valor de R$ 710 milhões foi considerado barato: "a pesar de pequeno, o acordo é estrategicamente positivo com a crescente exposição do banco ao segmento de alta renda", disse em relatório. Os analistas do "concorrente" Bradesco BBI também exaltaram o preço pago, que mostra-se " aparentemente justo, dependendo das sinergias extraídas pelo Itaú". A aquisição também reforça a leitura positiva de que o Itaú está reacelerando sua operação no Brasil, afirmam.

Já para o  analista da consultoria Lopes Filho, João Augusto Salles, o Itaú pagou um preço bom pelo Citi Brasil, porém as duas maiores motivações para que fizesse o negócio foram: criar uma barreira de entrada aos concorrentes que estavam se expandindo e reduzir o seu custo de capital. "O Itaú tem um índice de Basileia consolidado operacional de 14,9%, enquanto o Banco Central exige 10,5%. É uma confortável folga de capital - e que também tem um alto custo", disse Salles.

Salles lembra ainda que o fato dos grandes concorrentes do Itaú terem feito movimentos recentes para expandir seus negócios ajudou a motivar a compra. "O Bradesco adquiriu os ativos do HSBC Brasil, o Santander expandiu sua base através de uma joint venture com Bonsucesso no consignado e até as estatais também se expandiram, principalmente o Banco do Brasil com o Banco Votorantim e a Caixa, através de sua participação no Banco Pan", ressalta. 

Sobre o baixo preço pago pelo Itaú, o analista da Lopes Filho disse que o momento econômico desafiador e o resultado ruim da carteira de crédito de varejo do Citi pesaram sobre o número final.  "O varejo do Citi já tinha apanhado muito com a carteira de crédito há um tempo. O Citi entrou neste mercado entre 2005 e 2006, aproveitando-se do crescimento no segmento de baixa renda na economia mas, com a crise, houve um prejuízo da rentabilidade. Essa questão está inclusa no preço pago pelo Citi Brasil", avalia. Segundo o jornal O Globo, que cita fontes próximas do banco, a inclusão da provisão da carteira de crédito do Citi elevaria a transação para R$ 2 bilhões. "O Itaú terá que fazer provisionamento em um valor elevado", ressalta o analista. O banco, no entanto, não mencionou se realizará provisões. 

O Itaú também está de olho em algumas sinergias. O Citi tem 71 agências e aproximadamente 315 mil correntistas, além de R$ 35 bilhões entre depósitos e ativos sob gestão, 1,1 milhão de cartões de crédito e R$ 6 bilhões de carteira de crédito. O Itaú, por sua vez, tem mais de quatro mil agências e postos de atendimento e 44 mil caixas eletrônicos em todo o território nacional. 

Itaú-Citi X Bradesco-HSBC
A compra de ativos de um grande banco estrangeiro por um grande banco brasileiro não foi a primeira a acontecer no período recente. Em agosto do ano passado, o Bradesco anunciou a compra por US$ 5,2 bilhões de todo o conglomerado do HSBC, concluindo a operação em julho deste ano. O valor final da compra foi de R$ 16 bilhões.

O negócio foi aprovado pelo Cade com restrições, como o impedimento do Bradesco para comprar uma nova instituição por 30 meses.  Com a união das operações, o Bradesco terá um aumento do valor total de seus ativos em 15,9%, ou R$ 175 bilhões, um total de R$ 1,276 trilhão, ficando apenas atrás do próprio Itaú no quesito ativos.

Aliás, após a conclusão da compra da área de varejo do Citi Brasil, o Itaú passará a ter R$ 1,404 trilhão em ativos, o que reafirma a sua liderança entre os bancos privados no Brasil.

O analista da Lopes Filho ressalta que a aquisição do Bradesco foi muito maior e, com a compra do HSBC Brasil, houve um aumento de 20% nos ativos do banco. Já para o Itaú, os ativos do Citi adicionarão ativos "apenas na margem".

Entre as semelhanças, Salles aponta que tanto o Citi quanto o HSBC não tinham tanta penetração com o grande público e que, agora, vão voltar para o segmento de private banking e banco de investimentos no País.

Tanto o HSBC quanto o Citi, aponta o analista, não conseguiram administrar de forma eficiente a carteira do Brasil e aproveitou demasiadamente o momento de melhoria econômica, por volta de 2004, em um cenário de ganho real na economia e inflação baixa. Contudo, após a forte crise de liquidez pós-crise de 2008, as carteiras de ambos os bancos apresentaram maiores problemas. 

Outra semelhança - e que não é nada positiva para os que trabalham em ambos os bancos - é que tanto o Itaú quanto o Bradesco podem cortar pessoal, devido à sobreposição de áreas. "O presidente do Itaú, Roberto Setúbal, já havia afirmado que mostrou disposição em adquirir ativos não para comprar cimento, mas sim com o intuito de comprar tecnologia", destaca o analista.  Salles ressalta que esta não é uma operação que agregue muito ao Itaú, uma vez que há muita sobreposição, incluindo de pessoal. As agências do Citi são situadas em sua maior parte  em São Paulo, onde o Itaú tem atuação já bastante forte. 

Já para o Bradesco, a compra dos ativos do HSBC Brasil pode levar o banco a ser mais atuante como banco de investimentos, já que a unidade brasileiro do banco britânico é forte neste segmento, principalmente em termos de alocação de pessoas para essa área dentro do banco. Além disso, Salles aponta sinergias que devem ocorrer com a compra da financeira Losango, que era do HSBC. Porém, os cortes devem ocorrer tanto no caso Itaú-Citi quanto no Bradesco-HSBC.

As sinergias devem vir. Porém, no caso do Bradesco, até mesmo por conta do grande porte da operação, os números devem aparecer por volta de 2018, diz o analista. No caso do Itaú, os efeitos da compra do Citi Brasil devem começar a aparecer no final do ano que vem. Até lá, vale ficar de olho nos próximos balanços dos dois maiores bancos brasileiros - principalmente na linha "Provisões de Devedores Duvidosos". 

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