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Crise global empurra bancos no país para mais concentração, afirmam analistas

Sílvio Crespo

Em São Paulo

(Texto atualizado às 10h13)

A decisão do governo de publicar uma MP (Medida Provisória) autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a comprar participação em instituições financeiras privadas abre caminho para mais um passo no processo de concentração do setor bancário brasileiro.

A crise internacional tem criado oportunidade para que os grandes bancos entrem em negócios que até então eram dos pequenos e médios, na visão de alguns economistas. Paralelamente, ocorre também um outro movimento, o do fortalecimento dos bancos públicos.


Em junho, os ativos dos dez maiores bancos do país correspondiam a 83,6% do total do sistema financeiro, sem contar bancos de desenvolvimento. Com a crise, essa proporção deve aumentar para cerca de 85%, nos cálculos do professor Alcides Leite, da Trevisan Escola de Negócios.





O economista João Augusto Salles, da consultoria Lopes Filho, concorda que a crise tem levado a uma concentração: "Quem está bem fica melhor ainda". Ambos os analistas ressaltam que não se trata de os bancos grandes saírem da crise melhor do que entraram.

O ideal seria se não houvesse os problemas financeiros. Mas, uma vez que há, os bancos maiores perdem menos e acabam aumentando sua participação no setor.

O caminho para a concentração ocorre porque os grandes bancos têm comprado carteiras de crédito dos pequenos e médios. Ao mesmo tempo, em momentos de crise, existe uma tendência de que os aplicadores se sintam mais seguros colocando seu dinheiro em instituições aparentemente mais sólidas.

Dos dez maiores bancos do país em ativos, pelo menos oito já compraram carteiras de outros bancos. Apenas o HSBC e o Safra não anunciaram esse tipo de operação, mas também não negaram.

O Banco do Brasil, maior banco do país em ativos, investiu ou investirá no mínimo R$ 6 bilhões em compra de carteiras de outras instituições. A Caixa Econômica Federal já fechou negócios nesse segmento no valor total de R$ 4,7 bilhões. A Nossa Caixa, do Estado de São Paulo, desembolsou R$ 2,23 bilhões.

Entre os dez maiores bancos do país, confirmaram ter feito esse tipo de operação o Itaú, o Bradesco, o Santander, o Unibanco e o Votorantim. Os negócios das instituições privadas, segundo Salles, não tiveram a mesma magnitude daqueles feitos pelas públicas.

Associação discorda
A tese de concentração não é compartilhada pela Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro). O presidente da entidade, Alfredo Moraes, argumenta que nesse tipo de operação os gestores das carteiras compradas continuam sendo os mesmos.

A polêmica existe porque a operação, sozinha, não significa uma concentração, mas um passo inicial. "Pode não acontecer no primeiro momento, mas claramente está indo na direção de assumir as operações. Eles (os bancos grandes) estão aproveitando o enfraquecimento dos outros para ocupar mais espaço", afirma Leite.

"Tábua de salvação"
Salles ressalta que a venda das carteiras é importante para os bancos pequenos e médios. A decisão do BC de permitir essas operações funciona como uma "tábua de salvação" para as instituições que precisavam dos recursos.

A concentração nas atividades de crédito, pelo menos na intensidade verificada até o momento, não chega a prejudicar o país, segundo Alcides Leite.

Isso porque, no caso do setor bancário, não se deve olhar apenas para a competição, mas também para a saúde do sistema. Um grande número de bancos acirra a concorrência, mas também aumenta a probabilidade de que algum deles quebre, o que tende a afetar a segurança do sistema como um todo.

O mais interessante para o país, segundo Leite, é encontrar um ponto de encontro entre as duas curvas, a da concorrência e a da segurança.

Ele calcula que, para uma economia do porte da brasileira, o ideal é que os ativos somados dos dez maiores bancos do país correspondam a cerca de 85% do sistema financeiro total, desde que o primeiro da lista não chegue a 20%.

Os ativos do BB, o maior do país, equivalem a 15,8% do total do sistema financeiro nacional e 18,9% da soma dos dez maiores bancos.

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