Bolsas

Câmbio

Crise financeira adia projetos bilionários na América Latina

Financial Times

Projetos de investimento no valor de bilhões de dólares estão sendo cancelados ou adiados por toda a América Latina, à medida que a turbulência financeira nos países industrializados lança sua longa sombra sobra as economias reais da região.

No México, o ministério das comunicações e transporte adiou o prazo para as empresas se candidatarem à licitação do Punta Colonet, o mais ambicioso projeto portuário na história mexicana. O projeto, que pretende se transformar em um dos maiores portos do mundo e rivalizar com o complexo portuário de Los Angeles-Long Beach, visa lidar com seis milhões de contêineres por ano e seu preço é calculado de US$ 6 bilhões.

Luis Téllez, o ministro do transporte, disse que o adiamento está diretamente relacionado à turbulência ao norte da fronteira. "As empresas que participam em licitações deste tipo estão tentando resolver como financiar seu capital de giro, como renovar as linhas de crédito, e todos seus esforços estão concentrados nestas coisas", disse.

O ministério de Téllez também adiou os planos para construção de um aeroporto de US$ 150 milhões para atender ao destino turístico de Tulum, na península Yucután. O ministro disse que a decisão também foi resultado das dificuldades das empresas com as linhas de crédito.

No Brasil, o maior projeto individual suspenso até o momento é uma fábrica de celulose de R$ 4,9 bilhões no Estado do Rio Grande do Sul pela Aracruz, uma das maiores produtoras de papel e celulose do mundo.

A Aracruz é uma das três grandes empresas a reconhecer grandes perdas com derivativos de câmbio, que azedaram após a profunda desvalorização do real nos últimos dois meses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria alertado que cerca de 200 empresas enfrentam prejuízos com apostas semelhantes na moeda.

A Petrobras, a companhia estatal de petróleo brasileira, planeja investir pesadamente nos recém-descobertos campos de petróleo além da costa da região Sudeste. Uma estimativa do UBS, um banco de investimento, aponta o gasto necessário em US$ 600 bilhões, mas o plano estratégico para 2009-2013 tem sido repetidamente adiado.

Sérgio Gabrielli, o presidente-executivo da Petrobras, disse nesta semana que há "incertezas demais" no projeto. Ele reconheceu que a data final do plano pode ser estendida para 2020, indicando uma ampla revisão.

A Petrobras tem imensas reservas financeiras e analistas dizem que poderia se encarregar sozinha de gastos de cerca de US$ 200 bilhões, apesar de que provavelmente se voltará a parceiros, como a BG do Reino Unido, para financiamento e perícia.

Mas a dificuldade para obtenção de financiamento provavelmente mudará a abordagem. Um executivo da Petrobras disse ao jornal "O Estado de São Paulo" que a empresa está sendo forçada a estabelecer as metas de produção de acordo com a quantidade de financiamento disponível, o inverso de sua abordagem tradicional mais agressiva.

Economistas dizem que o desarranjo financeiro está se transmitindo para a região de várias formas, coibindo o apetite para investimentos. O crédito está secando, provocando fortes desvalorizações de algumas das moedas da região, por sua vez prejudicando algumas empresas latino-americanas que tomaram empréstimos em dólares. Os prejuízos de algumas empresas com investimentos em derivativos aumentaram as pressões sobre o câmbio e deprimiram os mercados de ações.

A desaceleração econômica nos Estados Unidos e na Europa reduziram a demanda por alguns produtos, levando a fortes quedas nos preços das commodities dos quais muitas economias latino-americanas são altamente dependentes. Além disso, a crise minou a confiança econômica.

Para algumas empresas, particularmente aquelas expostas ao mercado imobiliário americano e à crise das hipotecas subprime (de risco), a desaceleração teve início mais cedo. A Arauco, uma empresa de produtos de madeira e celulose chilena, fechou sua serraria em Lomas Coloradas no mês passado, com a perda de 250 empregos.

É a terceira serraria que o grupo fechou nos últimos dois anos e "nós esperamos que mais nenhuma seja fechada", disse o porta-voz Charles Kimber. Outros 300 empregos foram perdidos nos outros fechamentos.

Até mesmo empresas dependentes da demanda doméstica já estão sentindo dificuldades. O Cencosud, um grupo chileno que se tornou um dos maiores no setor de varejo latino-americano, com supermercados e lojas de departamentos na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e Peru, disse que está suspendendo investimentos regionais no valor de US$ 300 milhões por causa da crise financeira global.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos