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Paul Krugman: os gastos de hoje prejudicarão a economia de amanhã?

Paul Krugman

Neste momento há um debate intenso sobre a agressividade com a qual o governo dos Estados Unidos deveria procurar reverter o rumo da economia.

Muitos economistas, incluindo eu, estão pedindo uma expansão fiscal bem grande para impedir que a economia entre em queda livre. Outros, no entanto, preocupam-se com o peso que os grandes déficits fiscais representarão para as futuras gerações.

Mas estes últimos não entenderam nada. Nas circunstâncias atuais, não há uma dinâmica equilibradora entre aquilo que é bom no curto prazo e o que é benéfico no longo prazo. Uma robusta expansão fiscal na verdade melhoraria as perspectivas de longo prazo da economia.

A alegação de que os déficits orçamentários tornam a economia mais pobre no longo prazo baseia-se na crença de que o fato de o governo pegar dinheiro emprestado afasta o investimento privado - ao emitir lotes de dívidas, o governo inflacionaria as taxas de juros, o que faria com que o empresariado não se dispusesse a investir em novas fábricas e equipamentos, e isto por sua vez reduziria o índice de crescimento de longo prazo da economia. Sob circunstâncias normais, este argumento faz bastante sentido.

Mas as circunstâncias atuais estão muito longe de serem normais. Pensem no que aconteceria no ano que vem se o governo Obama cedesse aos inimigos dos déficits e reduzisse os seus planos fiscais.

Será que isso levaria a uma redução das taxas de juros? Tal iniciativa certamente não conduziria a uma redução das taxas de juros no curto prazo, que são mais ou menos controladas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos). O Fed já está mantendo essas taxas no menor valor que consegue - praticamente zero -, e não modificará essa política a menos que enxergue sinais de que existem sinais de que a economia possa sofrer um superaquecimento. E, ao que parece, esta não será uma perspectiva realista por um bom tempo.

E quanto as taxas de longo prazo? Essa taxas, que já estão no seu patamar mais baixo em meio século, refletem principalmente taxas futuras de curto prazo. A austeridade fiscal poderia empurrá-las ainda mais para baixo - mas somente por meio da geração de expectativas a economia permaneceria profundamente deprimida por um longo período, o que reduziria, ao invés de aumentar, o investimento privado.

A idéia de que uma política fiscal rigorosa quando a economia encontra-se deprimida na verdade reduz os investimentos privados não é apenas um argumento hipotético: foi exatamente isso o que ocorreu em dois importantes episódios da história.

O primeiro aconteceu em 1937, quando Franklin Roosevelt acatou erroneamente o conselho de indivíduos da sua própria era que temiam o déficit. Ele reduziu drasticamente os gastos governamentais, cortando, entre outras coisas, a Administração de Progresso de Trabalhos (WPA) pela metade, e também elevando os impostos. O resultado foi uma grave recessão, e uma queda drástica dos investimentos privados.

O segundo episódio ocorreu 60 anos mais tarde, no Japão. Em 1996-1997, o governo japonês tentou equilibrar o seu orçamento, reduzindo gastos e elevando impostos. E, novamente, a recessão que se seguiu provocou uma queda acentuada dos investimentos privados.

Apenas para esclarecer, eu não estou argumentando que a tentativa de redução do déficit orçamentário é sempre ruim para o investimento privado. É possível apresentar, como exemplo razoável, o fato de a restrição fiscal de Bill Clinton na década de 1990 ter ajudado a alimentar o maior boom de investimentos dos Estados Unidos naquela década, o que, por sua vez, ajudou a provocar a retomada do crescimento da produtividade.

O que fez da austeridade fiscal uma idéia tão ruim tanto para os Estados Unidos de Roosevelt quanto para o Japão da década de 1990 foram circunstâncias especiais: em ambos os casos, o governo recuou face a uma armadilha de liquidez, uma situação na qual a autoridade monetária cortou o mais que pôde as taxas de juros, mas, ainda assim, a economia continuou operando bem abaixo da capacidade.

E atualmente estamos metidos no mesmo tipo de armadilha - e é por isso que os temores em relação ao déficit são equivocados.

Mais uma coisa: a expansão fiscal será ainda melhor para o futuro norte-americano se uma grande parcela dessa expansão se der na forma de investimentos públicos - com a construção de estradas, reforma de pontes e desenvolvimento de novas tecnologias, todos estes fatores que, no longo prazo, tornam a nação mais rica.

Será que o governo deveria ter uma política permanente de trabalho com grandes déficits orçamentários? Claro que não. Embora a dívida pública não seja algo tão ruim quanto muita gente acredita - ela é basicamente dinheiro que devemos a nós mesmos -, no longo prazo, o governo, assim como indivíduos privados, precisa implementar um equilíbrio entre os seus gastos e a sua renda.

Mas neste momento temos uma carência fundamental de gastos privados: os consumidores estão redescobrindo as virtudes da poupança ao mesmo tempo em que o empresariado, chamuscado pelos excessos do passado e semi-paralisado pelos problemas do sistema financeiro, está reduzindo os investimentos. Essa lacuna será cedo ou tarde fechada, mas até que isso aconteça, o investimento governamental deve compensá-la. Caso contrário, o investimento privado e a economia como um todo despencarão ainda mais.

Então, a questão fundamental é que as pessoas que acham que a expansão fiscal atual é ruim para as futuras gerações entenderam tudo errado. A melhor linha de ação, tanto para os trabalhadores de hoje quanto para os filhos deles, é fazer o que quer que seja necessário para que a economia retome a rota da recuperação.

Tradução: UOL

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