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Martin Wolf: falência do Lehman foi necessária para governo encontrar uma solução para a crise

Martin Wolf
Financial Times

"Se o preço do petróleo estabilizar, eu acredito que podemos enfrentar a crise financeira a um custo limitado em termos de atividade real." Foi assim que Olivier Blanchard, recém-nomeado chefe do departamento de pesquisa do Fundo Monetário Internacional, descreveu as perspectivas à frente em 2 de setembro de 2008. Foi provado rapidamente que ele estava errado.

Poucos economistas perceberam na época quão frágil tinha se tornado o sistema financeiro global. A falência do Lehman Brothers menos de duas semanas depois e a crise que se seguiu no AIG, a seguradora gigante, transformou complacência em terror. O sistema financeiro caiu em um abismo, arrastando a economia consigo.

E que lições nós aprendemos com este choque, um ano depois?

Acima de tudo, que os verdadeiros seguradores do sistema financeiro podem ser vistos em nossos espelhos. Segundo o "Relatório de Estabilidade Financeira Global" do FMI, de abril de 2009, o apoio total ao sistema financeiro por parte de governos e bancos centrais dos Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido somou US$ 8,955 trilhões -US$ 1,95 trilhão em apoio à liquidez, US$ 2,525 trilhões em compra de ativos e US$ 4,480 trilhões em garantias.

Essas somas são enganadoramente precisas. A verdade dolorosa é que a renda dos contribuintes foi colocada a disposição dos credores do setor financeiro. Quando os ministros das finanças e banqueiros centrais do Grupo dos Sete países mais ricos se reuniram em Washington em outubro passado, eles decidiram tomar "uma ação decisiva e usar todas as ferramentas disponíveis para apoiar instituições financeiras importantes ao sistema e impedir a falência delas". Tempos desesperados, medidas desesperadas.

Como grandes instituições financeiras apresentam a maior probabilidade de falir durante uma crise, isso representou uma garantia sem limite por parte do governo. O que torna a decisão quase insuportável é que também foi, no meu entender, correta. O risco de falências em cascata de bons, maus e feios entre as instituições financeiras era aparente. Dado o que aconteceu após a falência do Lehman, apenas tolos teriam feito essa experiência. Nós não éramos tão tolos.

Logo, a lição aprendida com a falência do Lehman foi precisamente a oposta do que muitos esperavam no dia em que foi anunciada: é a de que toda instituição importante para o sistema deve ser resgatada em uma crise. Essa lição é reforçada pelo acordo atual de que o resgate, apoiado por um estímulo fiscal e monetário sem precedente, funcionou: o pânico acabou e a economia mundial está se recuperando.

De fato, é possível argumentar que a falência do Lehman foi necessária. Sem esse evento, não haveria chance de obter os recursos necessários para resolver a crise, acima de tudo junto ao Congresso americano. Foi o que argumentou o historiador de Harvard, Niall Ferguson, no "FT" de terça-feira. Ele provavelmente está certo.

Resumindo, tudo foi para melhor no melhor de todos os mundos possíveis. Olhando para trás, foi certo deixar o Lehman falir, pelo tamanho do desastre que causou. Isso então forçou a solução da crise pelo setor público e ensinou que uma falência dessas nunca mais de ser permitida de novo. Se essas forem de fato as lições que aprendemos, nós estamos cometendo erros imensos.

Primeiro, nós não podemos permitir a doutrina de que instituições importantes para o sistema são grandes demais, ou interligadas demais, para falir em uma crise. Nenhum negócio normal, com fins lucrativos, pode operar sem uma ameaça crível de falência.

Logo, o presidente Barack Obama está correto em pedir pela "reforma mais ambiciosa do sistema financeiro desde a Grande Depressão". O comunicado dos ministros financeiros e banqueiros centrais do Grupo dos 20 ressalta a atual agenda de reforma. É algo bastante sensível, até onde vai.

A pergunta, entretanto, continua sobre se será feito o suficiente para eliminar os incentivos atuais para ludibriar o sistema. Deve ser possível liquidar instituições sem os estragos que testemunhamos após a falência do Lehman. Isso passou a ser chamado de "testamento em vida". Um termo melhor seria "eutanásia assistida". Caso isso seja impossível, essas instituições devem estar sob algum tipo de regulamentação, como as que normalmente aplicamos às empresas de utilidade pública.

O segundo grande erro potencial é o retorno à velha doutrina de que é melhor realizar a limpeza após a crise do que realizar qualquer ação preventiva. Mas, por mais eficaz que a limpeza atual pareça, mais provável é que os banqueiros centrais chegarão a essa conclusão. Eles podem argumentar que, se como conseguimos sobreviver a uma crise tão imensa, nenhuma mudança na ortodoxia política é necessária.

Este seria um erro imenso, como William White, o ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais, argumenta em um estudo provocativo.* White, um dos poucos economistas no setor oficial a alertar sobre a proximidade de uma crise, argumenta que a abordagem "macroprudente", agora cada vez mais aceita, não pode se apoiar apenas em regulamentação. É quase impossível para uma regulamentação dessas superar os incentivos poderosos para a criação de crédito produzida pelas políticas monetárias expansionistas. Assim, argumenta White, um "endurecimento preventivo" deve substituir o "alívio preventivo". Se olharmos para trás para as últimas duas décadas de esforços cada vez mais desesperados de limpeza após crises, a sabedoria desta abordagem "cinto e suspensórios" parecerá evidente.

O terceiro grande erro é mais imediato: é presumir que já estamos bem no caminho de uma recuperação saudável. O pânico financeiro de fato acabou, como deveria, dada a escala das garantias públicas. Os riscos econômicos ainda não.

A recuperação é alimentada pelo resgate do sistema financeiro e pelas políticas fiscal e monetária extraordinárias, particularmente nos países com a maior alavancagem do setor privado. Por um bom motivo, os setores privados desses países provavelmente pouparão mais e pagarão sua dívida por muitos anos. Isto, por sua vez, agora exige uma grande mudança no equilíbrio entre oferta e demanda nas economias dependentes de exportação.

Blanchard lançou a agenda macroeconômica pós-crise em um artigo recente.** Como ele coloca, nós devemos administrar "reequilíbrios" delicados -primeiro, "o reequilíbrio entre gastos públicos e privados"; segundo "reequilibrar a demanda agregada entre países". A menos e até que ambos estejam administrados, a recuperação estará apoiada sobre areia movediça.

Permitir a quebra do Lehman não foi nosso maior erro. Ele foi permitir que a economia e o sistema financeiro se tornassem tão vulneráveis. Igualmente, o ano passado não restaurou a saúde nem do sistema financeiro e nem da economia. Nós evitamos o pior. Isso é bom. Mas não é o bastante.

*"Política Monetária deve ser 'Enxuta ou Clara'?", www.dallasfed.org

** "Sustentando a Recuperação Global", "Finance & Development", www.imf.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

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