Proposta brasileira no G20 encontrará forte resistência, dizem especialistas

Silvio Guedes Crespo

Da Redação, em São Paulo

O Brasil levará à reunião do G20, neste fim de semana na Escócia, uma proposta que, se aceita, poderia amenizar a forte entrada de dólares no país e evitar a formação de uma possível bolha econômica. Mas essa ideia sofrerá forte resistência, segundo especialistas ouvidos pelo UOL.

A sugestão brasileira é que, para evitar desequlíbrios cambiais, todos os países do grupo adotem a política de câmbio flutuante, em que a relação entre oferta e demanda de dólar determine o valor da moeda americana em relação à local.

O grupo que reúne os sete países mais industrializados do mundo, 12 emergentes e a União Europeia terá um encontro de ministros da Economia e presidentes de bancos centrais neste fim de semana, no Reino Unido.

"A proposta do Brasil vai encontrar forte resistência, não por parte dos países desenvolvidos, mas pelos países em desenvolvimento", avalia o professor Matias Spektor, coordenador do MBA de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Ele se refere principalmente à China, que adota o sistema de câmbio administrado, em que o governo determina o valor da moeda local em relação ao dólar.

O objetivo do Brasil é tentar conter uma entrada artificial de capital estrangeiro no país. Com a crise internacional, as economias desenvolvidas têm mantido suas taxas básicas de juros em patamares historicamente baixos, o que leva investidores a tirarem parte de suas aplicações nesses países e investirem nos emergentes, que têm taxas maiores e perspectiva de crescimento.

Câmbio artificial na China

Mas os investidores têm certa aversão à China porque o país asiático mantém um câmbio artificialmente baixo. Com isso, "o capital estrangeiro acaba preferindo o Brasil, em função da característica cambial", afirma o professor Otto Nogami, do Insper (ex-Ibmec-SP).

"Pode-se estar artificialmente criando uma bolha no mercado brasileiro, por isso o [ministro da Fazenda, Guido] Mantega decidiu pôr o IOF de 2% [sobre entrada de capital estrangeiro]. Agora a proposta é que a China flexibilize o câmbio. Essa é a grande preocupação", avalia Nogami.

Desde o início do ano até o fechamento do pregão de quinta-feira, o dólar já se desvalorizou 26,2% em relação ao real.

Para o professor de macroeconomia Fábio Kanczuk, da USP, essa proposta não vingará. "Faz pelo menos três ou quatro anos que existe essa história, essa pressão (para que a China adote câmbio flutuante). Agora o Brasil entrou nessa, mas no final é a China quem decide, entra por um ouvido e sai pelo outro", comenta Kanczuk.

Já Nogami é mais otimista: "a desvalorização do dólar não para. Isso começa a preocupar muito os bancos centrais. Nesse sentido, acredito que em curto intervalo de tempo começarão a surgir medidas efetivas".

A ideia de flexibilização do câmbio chinês já vinha sendo defendida pelos Estados Unidos e outros países desenvolvidos. A China, por sua vez, propõe a substituição do dólar por outra moeda nas transações internacionais, fato que encontra resistência justamente nos EUA.

Pressão sobre FMI e Banco Mundial

Além da proposta do câmbio flutuante, o G20 discutirá a necessidade de regulamentação do mercado financeiro internacional. Dentro desse aspecto, a expectativa, segundo os especialistas consultados, é de que o grupo de países defenda reforma no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial, incluindo uma participação maior de países emergentes nas decisões.

No entanto, "o G20 é um fórum político. Não é tanto um produtor de medidas práticas. Quem toma as medidas são os países. O G20 serve para colocar as idéias sobre a mesa e tentar encontrar uma compreensão comum (acerca dos problemas discutidos)", analisa Spektor, da FGV.

Essa "compreensão comum", no entanto, não será alcançada neste fim de semana. Os assuntos discutidos voltarão à tona em junho de 2010, quando o grupo se reunirá no Canadá, e em Novembro, na Coreia do Sul.

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